quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Diva Impressionista que eu Amo


Berthe Morisot com Leque - Manet

Pastora deitada - Berthe Morisot

Julie Manet por Berthe Morisot

Eugène e Julie Manet por Berthe Morisot


No Baile - Berthe Morisot


Berthe Morisot por Manet

Quando estive em Paris em Março bem corri desde a estação de metro mais próxima mas, como sabemos, a horas de fecho são inexoráveis, nomeadamente nos museus. E foi dessa forma deveras ingrata  que vi cerradas para mim as portas do Musee Marmottan Monet que albergava uma enorme retrospetiva de Berthe Morisot, uma das minhas pintoras preferidas. Não sei se soube desde esse momento que voltaria à cidade para ver a mega exposição, mas o certo é que, num belo dia azul de Junho Tamborim Zim aterrou no Charles de Gaulle e foi, entre comboios e metros, diretamente ao Marmottan Monet. (Lembro-me agora que chuviscava, ai o que a recordação pictórica promove!)

Obviamente, vinguei-me em delícia: cento e cinquenta trabalhos em que a cor, as formas, a diafaneidade e a beleza são barcas para uma viagem de sonho através das décadas do talento de Berthe. A feminilidade primorosamente oferecida, a graça etérea da infância e a captação tão interessante do crescimento da sua filha Julie (que tanto me parece a atriz Julie Delpy!) e a maravilha da paisagem,  juntam-se a portentosos autorretratos e também a retratos de Berthe pelo seu também mui talentoso cunhado Édouard Manet , que tinha na bela impressionista uma musa e uma modelo de excelência. (Berthe foi casada com o seu irmão, Eugène Manet).

Uma outra alegria que esta exposição me permitiu, um pouco mais tardia, foi a descoberta de que Morisot teve um antepassado pintor que eu admiro profundamente, o magistral Fragonard, de quem era uma sobrinha em já não sei que grau. Magistral, n’est ce pas?

Triste e curioso é saber que nem as suas cores, formas, beleza, inspiração e reconhecimento  (mas na sua identificação aparece como “sem profissão”… penas de mulher oitocentista) fizeram de Berthe uma pessoa feliz. Frequentemente acometida de depressão, Berthe só nos deu, contudo, a parte boa do que via, sentia, sonhava ou, talvez, desejasse: uma harmonia inesquecível, uma melancolia nunca menos que doce, uma festa da fruição.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Tamborim Zim entrevista... B Fachada


B Fachada
 (Fotografia de Manuela Pacheco)

Escutem esta Baladona  (B Fachada) - Criôlo:

Não ser mulher não faz falta a B Fachada

Quando ouvi falar dele pela primeira vez não senti o dito do chamamento - embirrei com o nome. Claro que isto deu-se apenas até ao momento de começar a ouvi-lo. Hoje, para mim, B Fachada é sinónimo de canções surpreendentes, discos maravilhosos e ambiências pontuadas de belo e de demanda. A ajudar à empatia, às primeiras impressões  concluí que este menino teria certamente influência do melhor da música popular brasileira ainda que sendo, evidentemente, um original. Mais tarde, soube que estudou Bossa Nova. Rejubilei. É, sem dúvida, o meu compositor nacional preferido neste momento e os seus discos dominam, imperiais, a vitrola lá de casa. Carece de atenção e apuro sofisticado, que isto não é a chinfrineira ensandecida que de imediato agrada a gregos e troianos. É para fruir, camaradas, é para fruir.


Tudo para dizer que foi com indizível alegria que recebi uma resposta favorável ao meu pedido de entrevista ao músico. Agradeço muito a disponibilidade e simpatia do João Santos, da MBARI Música e, claro, do B Fachada, pela gentileza de prestigiarem desta forma o meu blogzim.

Todos os 11 (onze!) discos do B Fachada podem ser ouvidos aqui: http://bfachada.bandcamp.com/ .
Brindo-vos, acima, com uma pérola encantadora do último disco acabadinho de sair, Criôlo, chamada Baladona. Outra das minhas canções preferidas deste disco é Como calha - show.
E abaixo... a entrevista!
"A arte não tem propósito. Começa e acaba em si (...)."
Tamborim Zim -  Não resisto a esta primeira pergunta: imagina-se a protagonizar um tropicalismo brasileiro, com toda a  carga de antropofagia estilística deste "movimento", em português de Portugal?
B Fachada - A noção de antropofagia na cultura brasileira vem do início do século XX e é um dos pilares fundadores para a cultura brasileira e para o carácter dominante que tem vindo a tomar passados estes 100 anos. Nesse aspecto, é difícil para mim ambicionar um alcance equivalente ao do tropicalismo sem ter esse passado fundador (literatura, música, artes plásticas, cinema, etc.) às costas. Claro que estaria a mentir se fingisse que o modelo brasileiro não é para mim o exemplo mais perfeito de como uma cultura saudável deve ser fundada e desenvolvida e que não sinto uma empatia muito especial com a razão e o coração do "trio eléctrico"...
TZ - Os seus discos são bastante diferentes entre si mas reconhece-se uma matriz autoral muito assertiva e formosamente narcisista. Mesmo em segmentos do seu percurso que possam indiciar uma toada melódica e lírica mais temática, como poderá ser o caso de B Fachada é Pra Meninos, a sua ambiência é reconhecível. Como descreveria um ideário que considerasse atravessar fundamentalmente o seu trabalho, ou que pretendesse vincular à sua obra, e veicular?
BF - Mesmo o meu narcisismo (mais ou menos desbragado) se enquadra numa certa frieza e curiosidade formalistas que eu exploro no meu trabalho. Interessa sempre explorar tudo o que possa colocar à canção problemas lógicos nos diferentes planos: no assunto, na estrutura, na noção de autor ou na noção de narrador, na noção de canção, contemporâneo, moda, personagens, etc..
TZ - Tenho muita curiosidade sobre a fruição artística dos artistas e, neste caso, sobre a maneira de ouvir música de um músico. A questão é mais simples para as novidades, mas relativamente a discos antigos de compositores/cantores que admire, ainda os ouve integralmente, em silêncio, por dentro das faixas? Ou passaram a integrar o som ambiente? Estuda-os, disseca-os tecnicamente?
BF - Passo mais tempo a ouvir musica para estudar do que por lazer... Mas claro que tenho aqueles discos que ouço de vez em quando para aquilo que é para mim uma espécie de experiência musical absoluta, só com os ouvidos, sem estar sempre a perguntar "porquê?".
TZ -De que forma compõe habitualmente? Música e letra nascem siamesas, escreve um texto que musica depois, ou dá fala à música com uma letra posterior?
BF - Obrigo-me a ser o mais polivalente possível neste aspecto; quando estou a fazer uma canção por um processo que nunca usei fico mais confiante de que o resultado vai ser diferente do que eu já fiz antes. Às vezes começa pela letra, outras pela música, outras ao mesmo tempo, pelo início, pelo meio, pelo fim, já houve canções que começaram por ser uma ideia de forma, outras uma ideia de conteúdo, outras sem ideia nenhuma.
TZ -Tem um disco seu preferido ou responderá que a todos ama da mesma forma, como filhos?
BF - De uma maneira geral, gosto sempre mais do último que fiz, mas há discos pelos quais tenho mais carinho que outros, mas claro que isso tem mais a ver com razões pessoais que musicais.
TZ - Gostava de saber quais são os músicos que mais admira. Três, ou quatro. E, se não coincidirem, dois ou três cantores.
BF - É difícil escolher assim no geral, mas se tentar concentrar-me na música em português posso dizer que o Zeca e o Alfredo Marceneiro em Portugal e o João Gilberto e o Caetano no Brasil são os quatro pontos cardeais do meu "manual da língua cantada".
TZ - Para além de influências puramente musicais, de que outras impressões estéticas, em geral, e artísticas, em particular, retira inspiração para compor?
BF - Principalmente da literatura. É fácil aprender com os grandes clássicos: são as melhores lições de forma, língua, narração e narrador.
TZ - A arte tem propósito ou é despropositada por natureza?
BF - A arte não tem propósito. Começa e acaba em si: a leitura é que tem propósito. Apesar disso, não considero a música pop uma arte, mas sim uma espécie de artesanato e esse já tem um propósito: representar um espaço e um tempo (da humanidade) muito curtos e com uma grande intensidade. Para que possa ser absorvido por inteiro e ser substituído facilmente pelas gerações seguintes.
TZ - O que é que quer ser quando for grande?
BF - O maior!


* A formatação do texto anda impossível, perdoai leitorado.

sábado, 25 de agosto de 2012

Noite

Moonlight River - Aert van der Neer

Hoje é serenar com DVDs, comer bolo de chocolate (vegan, claro), enganar saudades e lonjuras. Deixar a noite espojar-se à vontadex. E trocar de DVD, de guardanapo, de caneca, ficar no bolo de chocolate e acalentar alegrias.

Noite comprida, de chocolate e histórias, noite e ainda bem.

Boa noite, leitor.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A lista dos 50 (e outros) livros de Tamborim Zim

A respeito da lista dos 50 livros imperdíveis segundo algumas personalidades, e publicada no Expresso, conforme comentado em alguns blogs, pensei um bom bocado nos títulos que escolheria dentre os livros que li. E foi complicado. Às vezes por me parecer um número elevado e, às vezes, por o achar pequeno. Claro que nestas coisas a subjetividade reina, e assim mesmo é que é bom.

Tenho lido muito poucos livros na última década, comparativamente aos meus vorazes hábitos de leitura de infância, adolescência e verde juventude. Quem sabe os recupero em breve?

Bom, mas aqui fica a minha lista, da qual não constam pérolas como Patrícia, Os Cinco, entre outras produções inesquecíveis da literatura juvenil, por uma questão de espaço e de arrumação de ideias. A ordem não é a de preferência, com exceção do primeiro, o meu preferido de todos até hoje. (Quem sabe um dia, com releituras ou novidades, chegue a outra conclusão... Contudo, duvido).

Os 50, ao dia de hoje:


1.       Os Maias – Eça de Queiroz

2.       A Imortalidade – Milan Kundera

3.       Névoa – Miguel de Unamuno

4.       O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde

5.       Morte em Veneza – Thomas Mann

6.       Gabriela, Cravo e Canela – Jorge Amado

7.       Mar Morto – Jorge Amado

8.       Rosinha Minha Canoa – José Mauro de Vasconcelos

9.       O Principezinho – Antoine de Saint-Exupéry

10.   A Fada Oriana – Sophia de Mello Breyner

11.   Verdade Tropical – Caetano Veloso

12.   Cândido – Voltaire

13.   A Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector

14.   Perto do Coração Selvagem – Clarice Lispector

15.   As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

16.   A Cidade e as Serras – Eça de Queiroz

17.    Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley

18.   Viagens na Minha Terra – Almeida Garrett

19.   Seara de Vento – Manuel da Fonseca

20.   A Epopeia de Gilgamesh – Anónimo

21.   Terra de Neve – Yasunara Kawabata

22.   As Rosas de Setembro – André Maurois

23.   Pela Estrada Fora – Jack Kerouac

24.   Uivo e Kadish – Allen Ginsberg

25.   Obras Completas de Fernando Pessoa

26.   A Morte de um Apicultor – Lars Gustafsson

27.   Presença de Anita – Mario Donato

28.   Olhos Inocentes  - Imitação de Infância – Leandro Tocantins

29.   O Amante da China do Norte – Marguerite Duras

30.   O Amante – Marguerite Duras

31.   Da Felicidade -  Hermann Hesse

32.   Escalas do Levante – Amin Maalouf

33.   A Espuma dos Dias – Boris Vian

34.   Obras de Eugénio de Andrade – Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes sem Dinheiro

35.   Eurico, o Presbítero – Alexandre Herculano

36.   A Vida Depois de Deus – Douglas Coupland

37.   Lua de Mel, Lua de Fel – Pascal Bruckner

38.   Ausente na Primavera – Agatha Christie

39.   Morte no Nilo – Agatha Christie

40.   Grades Doiradas – Max du Veuzit

41.   O Mar – John Banville

42.   Os Proscritos – Honoré de Balzac

43.   A Princesinha – Frances Hodgson Burnett

44.   A Ilustre Casa de Ramires – Eça de Queiroz

45.   A Volta ao Mundo em 80 Dias – Júlio Verne

46.   A Morgadinha dos Canaviais – Júlio Dinis

47.   Cosa Nostra: História da Máfia Siciliana – John Dickie

48.   António Carlos Jobim – Um Homem Iluminado – Helena Jobim

49.   Um Dia – David Nicholls

50.   Gertrud – Hermann Hesse

51. Do Sentimento Trágico da Vida - Miguel de Unamuno

52. A Descoberta do Mundo - Clarice Lispector

Uma verdade que chega como um inseto

Habituamo-nos tanto a lidar com coisas que às vezes, demasiadas, deixamos de ver as pessoas.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

E a propósito de estrelas

A Cidade Sitiada - Clarice Lispector
(Relógio D'Água)

Se não fosse a minha querida Alegoria e a minha multidão feérica, cof cof (perdão) frenética, de leitores, nem sei como aguentaria o regresso destes maravilhosos dias de férias campestres. Pura mágoa, a minha separação do campo. Hélas.

Acabei por não revisitar o Eça, mas a segunda e última leitura destas férias foi, como esperava, venturosa: A Cidade Sitiada, de Clarice Lispector. Presença única na literatura de língua portuguesa, bem calha evocar a sua origem europeia, ucraniana de facto, ao enfatizar-lhe a peculiaridade. Talvez a minha escritora mulher preferida, lê-la é empírico e empíreo. A um tempo uma deambulação do espírito e um prazer de refeição arrebatadora. Mesmo em ameaços de indigestão, a impiedosa pureza concreta da escrita de Lispector não nos atira fora do córrego; leva-nos consigo, transporta, seduz na transformação. Transborda. Clarice transborda. Que sejamos sempre assim gloriosamente atingidos. Filosoficamente animais, concupiscentemente subtis.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Luxo só

Estrelas meta-alegóricas

E em breve... mais entrevistas serão aqui publicadas, para meu imenso prazer e gáudio escrevinhador-palrador.

Fiquem atentos e não se esqueçam do protetor estelar: sim, serão várias as estrelas.

Mais um belíssimo entrevistado: Prof. Carlos João Correia na Alegoria

Lembrai-vos, minhas miríades de leitores cândidos e ainda mais gentis, de vos ter falado de uma série de entrevistas que fiz anteriormente no Facebook a alguns dos meus amigos contactos? Já aqui deixara esta, tendo acrescentado outra entrevista, inédita, na Alegoria.

Hoje deixo-vos esta conversa deliciosa com o maravilhoso Prof. Carlos João Correia, professor de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, a quem muito agradeço ter-me autorizado a publicação aqui no blogzim. Docentes assim são o verdadeiro luxo de qualquer estabelecimento de ensino e é um privilégio encontrá-los no caminho.

Ora vejam:

Tamborim entrevista…Carlos João Correia


Professor de Filosofia


“(…) é crucial que eu percorra um longo caminho de auto-aceitação ou, se se preferir, de me tornar aquilo que sou. De algum modo, é uma demanda filosófica, pois se existe imperativo da filosofia é precisamente o "tornar-se aquilo que se é".
TZ - Professor Carlos João, muito obrigada por aceitar participar nesta FB série "Tamborim Entrevista"! A primeira pergunta que me tenta colocar-lhe é se considera que pode ser identificado, na actualidade, um conceito, ou rede de conceitos, ou palavra, ou pergunta para a qual a filosofia pensada, escrita e difundida nos dias de hoje convirja maioritariamente na sua demanda. E, se sim, qual ou quais?
CJ- Eu é que agradeço a atenção. No âmbito da filosofia cultivada no Ocidente é possível encontrar uma resposta muito precisa à sua questão.
A filosofia da mente constitui a principal interrogação do pensamento contemporâneo desde os anos 80.
Em torno das questões colocadas pela natureza da mente encontra-se uma rede de conceitos e de problemas: identidade pessoal; natureza da consciência; sentimento de si e o papel das emoções; qualia; perspectiva da primeira pessoa versus perspectiva objectiva, etc.
Em todos estes problemas joga-se uma reflexão sobre a natureza da mente que não se cinge apenas à esfera humana, mas que tem em consideração outras formas sencientes de vida.
TZ - Nessa perspectiva, podemos concluir que a filosofia está cada vez mais "psicologizada", quero dizer, muito próxima, em muitas frentes, do domínio da Psicologia? Ou será esta uma conclusão abusiva?
CJ- Por razões que se prendem com a história da Psicologia, é até o inverso que se está a passar... A Psicologia, no século XX, foi dominada por dois grandes modelos: a psicanálise e o behaviorismo. Ora, a questões da natureza da mente e da consciência, da perspectiva da primeira pessoa, etc., são problemas menores dessas duas interpretações psicológicas (se é que elas se podem mesmo colocar no behaviorismo). Nos últimos tempos - dado o impacto dos problemas levantados pela filosofia da mente - a psicologia tem-se aproximado da filosofia... Por mais estranho que possa parecer, discute-se muito mais as questões da mente e da consciência nos cursos de Filosofia do que nos de Psicologia. A meu ver, a Filosofia, ao tratar este tipo de problemas, não faz mais do que fazer justiça ao conhecido imperativo socrático: conhece-te a ti próprio!
TZ - A propósito do imperativo filosófico, quer o Professor responder ao Cioran, cujos silogismos ando a ler? (Mesmo não podendo este autor ser nosso amigo do FB...) Aqui vai: "Como é que alguém pode ser filósofo? Como é que se pode ter a ousadia de enfrentar o tempo, a beleza, Deus, e tudo o mais? O espírito incha e saltita desavergonhadamente. Metafísica, poesia - impertinências de um piolho..." Não é doce o Cioran...
CJ- Emil Cioran pode não ser nosso amigo/contacto no Facebook, mas existem quatro ou cinco páginas do Facebook dedicadas a ele... :) Ao ouvir este aforismo de Cioran pensei imediatamente em dois textos: 1. o livro de Job, em que Deus pergunta sobre quem "esvaziará os odres do céu" e o paradoxo de Epiménides (em que ele sendo um cretense nos diz qualquer coisa como "todos os cretenses são mentirosos"...:) Poderia - se assim quisesse - invocar o constante trabalho de análise crítica da filosofia sobre os limites do conhecimento; mas prefiro antes sublinhar que essa "ousadia" - titânica, prometeica -, constitui a própria dignidade de se ser humano.
TZ - Nesta época mais escura que obscura é esse ser humano, cuja dignidade vai parecendo ser mais luxo que outra coisa, bem de 6ª necessidade, que muitas vezes, para além do desespero de causa procura, ou gostaria de procurar, uma saída. Há alguma "voz amiga" que a reflexão filosófica possa oferecer, numa mensagem sintética para esse desespero, para esta escuridão? Alguma esperança filosófica concreta e transmissível para esta austera descrença?
CJ- A minha primeira tendência é dar uma resposta negativa. Schelling, para caracterizar a actividade filosófica, relembra a inscrição que Dante colocou à entrada do seu Inferno : "Vós que quereis entrar aqui abandonai toda a esperança". E acrescenta: "Quem quer verdadeiramente filosofar deve abandonar toda a esperança, toda a exigência e todo o desejo, é preciso nada querer, nada saber, sentir‑se inteiramente nu e pobre, tudo sacrificar para tudo obter. É difícil dar este passo, é difícil abandonar a margem." Utilizando uma linguagem menos poética, e como tal menos bela, a filosofia analisa os diferentes conceitos que atravessam as diferentes actividades humanas e é apenas motivada pelo amor à verdade, mesmo que esta seja dura e difícil. Mas esta análise pode, no limite, permitir um outro tipo de esperança e que é indiciado no quadro de Goya, "El sueño de la razón produce monstruos". Com efeito, a história multímoda da humanidade - pois não é única; são antes múltiplas histórias que se entrecruzam - tem mostrado que, tanto o sono da razão como a sua idealização excessiva, podem causar um sofrimento inútil, desnecessário, sem sentido. A razão filosófica é a razão desperta, i.e. a actividade intelectual humana em que, como nos disse Kant, "podemos prestar contas de todos os nossos conceitos, opiniões e afirmações." Não há lugar para qualquer dogmatismo, apenas o espírito livre que ama a verdade. E isso é intrinsecamente bom... Como são intrinsecamente boas outros actividades que não são filosóficas, mas que enchem a nossa alma de felicidade. Aqui a filosofia apenas nos pode indicar o caminho...
TZ - Se pudesse escolher 3 personalidades, de todos os tempos, para passarem, apenas os 4, um mês inteiro numa ilha deserta e paradisíaca (portanto não teriam de preocupar-se com inimigos de qualquer espécie), quem seriam os eleitos?
CJ- Shakespeare, para contar e representar histórias, Jacqueline du Pré, para se poder ouvir boa música (e dar-lhe oportunidade de uma vida paradisíaca que infelizmente não teve), e Platão que, ainda hoje, é o modelo da boa pedagogia (e é sempre bom aprender coisas novas mesmo numa ilha deserta...).
TZ - Alguma grande meta a que se proponha neste momento da sua Demanda e que possa partilhar connosco Professor?
CJ- É fácil de partilhar na medida em que estou convicto que a minha demanda é comum a todos os seres humanos. C.G. Jung, o psicólogo suíço, descrevia essa busca como sendo o processo de "individuação" [Individuation]. Ele definia-o como sendo "o processo através do qual uma pessoa se torna um "in-divíduo" [literalmente 'não-dividido] ", em que nos tornamos autónomos, sem que isso signifique uma dissociação da nossa relação com os outros. Mas, para que isso aconteça, é necessário uma reconciliação com múltiplas vertentes que consideramos, numa primeira análise, distantes ou negativas (na terminologia de Jung, a nossa "sombra"). Para o dizer numa só expressão, é crucial que eu percorra um longo caminho de auto-aceitação ou, se se preferir, de me tornar aquilo que sou. De algum modo, é uma demanda filosófica, pois se existe imperativo da filosofia é precisamente o "tornar-se aquilo que se é".
TZ - Nesse "longo caminho de auto-aceitação", não correremos o risco de encurtar a Demanda? Ou a auto-aceitação é uma rampa para alhures?
CJ- Se fizermos fé nas palavras do antropólogo americano Joseph Campbell, em particular na sua teoria do monomito, o retorno ao ponto de partida não anula o sentido, o interesse e as peripécias de um percurso, é antes a sua finalidade última. De algum modo, pode-se dizer que Homero também pensou o mesmo na Odisseia na ideia do retorno a Ítaca. Mas, se se quiser, pode-se dar um sentido mais zen a tudo isto... :) Contemplemos, a título de exemplo, o céu e a relva que nos rodeiam. Meditemos sobre essa realidade. Num primeiro momento, percepcionamos que a forma é forma e o vazio é o vazio, i.e. que a relva e o céu são entidades distintas e têm cores diferentes; num segundo momento, apreendemos que forma e vazio são o mesmo, i.e., assumimos a experiência do todo, em que deixa de ter sentido falar-se da relva independentemente do céu e deste último sem a relva; num terceiro momento, compreendemos que não existe nem a forma nem o vazio, que relva, céu e uno são meras palavras, descobrindo, assim, o silêncio da mente que contempla; mas, finalmente, re-conhecemos que a forma é forma e que o vazio é vazio. E, deste modo, podemos aceder à realidade tal como ela é, em que a relva é verde e o céu é azul. O primeiro e último momento podem parecer muito semelhantes, mas existe um mundo de diferenças entre eles.
TZ - Qual o sentido do veganismo? Afinal cada um tem ou não direito de comer o que quer?
CJ- Um dos princípios fundamentais das sociedades humanas, algo bem sublinhado pelos antropólogos, é a existência de regras alimentares em cada cultura. Todas as sociedades humanas - mesmo entre as comunidades de canibais - conhecem regras de interdição. Julgo que uma das mais importantes e racionais consiste em evitar o sofrimento e a morte de todos os que podem sofrer com os nossos actos. Quem são esses seres? Embora seja literalmente imprecisa, a resposta encontra-se indicada claramente na declaração de uma modelo alemã, afirmação que muito me impressionou: "não como nada que tenha olhos". Quem tem olhos tem um mundo que lhe é próprio e ninguém tem o direito de o destruir. Como diz o ditado hebraico, quem salva uma vida salva um mundo... e quem o mata?
TZ - E para terminar, não sem pena: alguma pergunta que gostasse especialmente que tivesse sido formulada?
CJ- Não tenho mais nenhuma. As questões foram excelentes. O meu obrigado pela atenção!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Lapso fotográfico

Erro de Tambo
(Foto de Zim)

A aragem que arrepia os pluriversos.

Leituras de férias

Viagens Contadas - Maria João Ruela (Esfera dos Livros)

Deram-me este livro há tanto tempo e só por estes dias o li finalmente. Maria João Ruela, numa narrativa muito cuidada, discretamente reflexiva, colorida, vívida e precisa, dá-nos a conhecer algumas das suas experiências de viagens pessoais mais marcantes: Chile, Argentina, Nepal e Marrocos contam-se entre os pontos do planeta com os quais podemos trocar duas retinas de conversa ao sabor da escrita escorreita da jornalista.

Mais uma série de razões para descobrirmos renovados destinos de partida.

Mais uns flashes de maravilha

Pois então

Zêzere

Pampilhosa
(Fotos de Zim)


Bem dizia, bem dizia que no campo é que se está bem, e sempre o dulcíssimo Centro a acenar-nos com as suas frondosas rendas de acácias, salgueiros, medronheiros, serras, vales, rios serpentinos e teimosos.

Tirar uns dias por ano para nos aprofundarmos entre verdes, para vicejarmos dentre azuis, calores e sombra, ler sossegadamente, passear muito, respirar fundo, tragar bons brancos e tintos melhores, rir e poetar para os que amamos - obrigatório, essencial, rutilante leitores, rutilante.

sábado, 11 de agosto de 2012

Mergulhada na grã natura

Tristeza de fins

Alegria
(Fotos de Zim)


Eis-me aqui, diletos leitores, no preciso local onde há quase um ano nasceu esta Alegoria da Primaverve. Embrenhada e encantada, peripatética e interessada viandante por caminhos novos e velhos. Triste por ter passado na área do grande incêndio em Azeitão, Figueiró dos Vinhos, onde um valoroso e corajoso bombeiro perdeu a vida a tentar combater o fogo e salvar a terra. Tragédias que ensombram e moem.

Mas retomando  bom, tantas vezes digo, e repito, que me perco na doçura da natureza do centro do País, na elegância das suas serras, verdes e azuis, na formosura dos pinheirais altivos, no perfume viciante que os eucaliptos altos, magriços, e outros tenros de jovens atiram sobre os ares e as nossas deliciadas, delicadas narinas recetivas.

Um deleite ver o perfeito casamento de vegetação e água na Aldeia do Xisto de S. Simão. Portugueses e estrangeiros divertem-se e refrescam-se do muito calor entre águas e sol, à sombra das magníficas fragas.

Que bem se está no campo, camaradas. Recomendo.

Vá, saiam da cidade. Arredem.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

36

- Parabéns Zim!!!

Até aqui voou! Espero que o tempo seja mais e melhor fruído na continuação da Demanda - afinal, não dizem que ficamos mais maduros e com os palatos mais sofisticados?

Há precisamente dez anos ainda boa gente se lembra do drama que se me abateu: 26 anos! Era o fim dos vinte e "poucos", dos verdes vinte. Depois não me preocupei mais e simplesmente amei ter feito 30 anos, assim como festejar os meus 35 numa linda montanha nevada no Jungfraujoch, na magnífica Suíça.

Este ano também não há drama, apenas a alegria de aniversariar entre aqueles que mais amo e que mais me amam, num dos sítios que mais amo, e o gosto de estar viva e de haver ainda tanto percurso, tantas aventuras, estações, apeadeiros e caminhos pela frente. O devir, o devir, camaradas. Que venham muitos mais.

Parabéns Tamborim Zim querida.

Hoje o Jorge Amado também faria anos, se vivesse para além dos nossos corações.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Notícia de última hora

Nunca a blogosfera me pareceu tão preguiçosa e entediante. Será da silly season, ou do guaraná?

A Expansão europeia da época moderna em grande no Facebook

O mar, o outro, a expansão

Um meu colega (de alguns anos atrás) teve a magnífica ideia de criar um grupo aberto no Facebook chamado História da Expansão e dos Descobrimentos Portugueses e da Expansão Europeia. Basicamente serão abordados aspetos diversos sobre o tema, no período que medeia os séculos XV e XVIII, essencialmente. Pretende-se partilhar contributos, ideias, opiniões e dúvidas numa atmosfera de rigor histórico e, simultaneamente, de descontração e informalidade. O prazer da conversa e da reflexão histórica e a ponte entre o domínio académico e o senso comum animam também o intento do grupo.

Estão todos convidados a participar. O conhecimento e o pensamento sobre o percurso cultural e civilizacional humano através dos tempos torna sempre a nossa "paisagem" mais vasta, profunda e esclarecedora.

E eu sempre tive um fraco assumido pela época moderna.

Das expectativas felizes

- Campo! Essa é que é Eça!

Estar de férias (10 dias inteiros com fins-de-semana, tal como não me canso de reafirmar à minha consciência), já ter quase tudo preparado e o detalhe em falta ser escolher o clássico português a juntar-se aos outros livros para ler. Será um Eça, claro. Saber que vou lê-lo, ou melhor, relê-lo entre a tranquilidade vivaz da mãe natura, com tempo, tempo e verde, tempo distenso, verde distenso, com aquele sentido de eternidade, dá-me uma porção de felicidade para, como dizem os manos brazucas, "ninguém botar defeito".

domingo, 5 de agosto de 2012

Leitura de hoje

Clepsydra - Camilo Pessanha
(Foto de Zim)

Ler poesia é esticar e tanger as cordas sensíveis da existência. A sintonia que é dada através das eras é a do encontro do nosso olhar e sentimento com os signos inscritos pelo poeta num momento dado, num sentido seu, que pode ou não ser redescoberto pelo leitor que voga.

Ler um poema é apanhar um avião.

Aqui deixo um pouco do melhor da poesia, via Camilo Pessanha. Este livro foi editado pela primeira vez em 1920 pela dama amada (sem correspondência...) por Pessanha, Ana de Castro Osório, estando o poeta na longíngua Macau. Magnificente pintura, para além do mais. Imagino este poema numa daquelas telas ocres enormes de Gustave Guillaumet. Ora vejam:


Branco e Vermelho


A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso…
Que delícia sem fim!

Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)

Na areia imensa e plana,
Ao longe, a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte,
Da enorme dor humana…
Da insigne dor humana…
A inútil dor humana!
Marcha curvada a fronte.

Até ao chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.

A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Pavidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.

Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror…
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei- los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor…

E ali fiquem serenos,
De costas e serenos...
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.

Ó Morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa…
Tudo vermelho em flor...

Uma pequena glória

O cavalheiro, o chapéu, a revista e o Sena (Foto de Zim)

Mas, na verdade, esta sucessão de fotografias de hoje aconteceu porque queria mostrar-vos esta. Um ângulo e um acaso fascinante que me dirigiu o olho à Paris.

Tempus fugit mas fugit!

Stromboli (Foto de Zim)

Se já cheguei com a vista turva à bela ilhazinha nem vos digo quando, horas e horas e horas e horas e horas depois cheguei, lívida e morrente, a Messina.

Lembrança - la cosa mia

Etna de longe (Foto de Zim)

Este preto e branco ficou assim por lapso, mas ainda bem. Bichano em convulsão sempre presente pela Sicília.

Fleurt

O olor tempera (Foto de Zim)

As coisas radiosas que inventamos. Flores a flirtar.

sábado, 4 de agosto de 2012

Quando os sentidos dançam

Jardim dos Sentidos

Lisboa estava no seu momento encantatório de final de dia. Ainda azul, ainda bem solar, já com laivos ventosos a dar a dar em derredor. Era preciso jantar e tínhamos designado devidamente o local desejado. Na Mãe d'Água, ora bem...rumámos ao mágico (acho mágico, o que querem?...) jardim das Amoreiras e dali procedemos à prospeção do terreno. É que nem rastro, cheiro ou pista. Uma antiga e simpática mercearia da zona acabou por ser a salvação, uma vez que um gentil senhor nos dotou com a orientação que se requeria mas que tardava em fugir-nos, na justa proporção a que a fome se instalava. E lá passámos de novo entre as mesmas ruas, e os quiosques que entardeciam, mas tudo se reanimava subtilmente com o exaurir lento da luz de Agosto.

Certo... Príncipe Real, aí vamos nós. Afinal é por ali a Rua da Mãe d'Água. Toma lá para melhor dominares a toponímia, Tamborim Zim. Aí chegadas, outro enigma se abateu sobre os nossos pés cansados... então mas a rua continua exatamente por onde? É que apenas nos levava a outra rua...com outro nome, e nada nas numerações parecia bater certo. Todavia, a a imagem dos belíssimos pratos que tinha visto animava-me, aconchegava-me a paciência e acicatava-me o palato azougado. Mais pessoas, mais quiosques, mais perguntas. Ah, vê a ruazinha, continue, à esquerda, depois à direita, depois... Certo.

Lá chegadas, finalmente. Ambiente agradável, com um engraçado espaço coberto por onde o ar livre entra pela frente aberta, parecendo uma tenda das Mil e uma Noites. Faltava desvendar o último - e sublime - sentido do que aí nos levara nesse contumaz encalço. Assim se deu.

Entrada: trouxinhas de tomate seco com mangericão... prontamente degustadas-devoradas em prosa, em poesia, em ais e uis do céu da boca. Continuando... um translúcido vinho branco a refrescar do esforço e a apaziguar os membros. Patés diversos, concentro-me no de gengibre... mais uma paleta de sabor. Apre, o que é bom é bom. Gorda eu seja, seguindo. Prato escolhido: Kofta. Nem migalha me sobejou: almôndegas de Kibi, arroz no ponto, ervas frescas e um extravagante envolvimento de molho de tomate simplesmente or...original, hum. Deleite por momentos a fio, e o fresco da noite já no seu pleno a temperar os efeitos do branco puríssimo e de todo o reconfortante e viajante calor daquela comida.

Meus intangíveis leitores não posso deixar, aqui e agora, de recomendar-vos com muito afã e delícia o restaurante vegetariano Jardim dos Sentidos, na Rua da Mãe d'Água, nº. 3 (Príncipe Real como referência.) Que as vossas papilas gustativas dancem freneticamente e se distendam depois no inebriante bailado da fruição! Brindo a isso e o regresso inspira-me.

Má língua pura e dura

- Zzzzzzummmm....zzzzzummmm!...

Penso que todos sabem que esta salinha de estar é um lugar, a um tempo, liberal e de respeito. Claro está que não é isso que nos impedirá de refletir filosófica e cirurgicamente sobre bens e males do mundo e de soltar a língua, ou as digitais polpazinhas, para o desabafo sempre benquisto e até benéfico para a nossa homeostase.

Venho hoje dardejar sobre a demasiada pegajice romântica. Nem sei se romântica. Pretensamente romântica, podendo sê-lo ou não. Acho que a todos já sucedeu estar entre amigos e um deles ser sucessivamente acometido de repetidos e aborrecidos bip bips dos telemóveis: o pobre pode estar a almoçar, a jantar, ou entretido num serão, e pimba. O ecranzinho ensandecido do telemóvel não para de zurzir a nossa paciência, até porque geralmente, em tais situações, o recetor lá vai analisar a mensagem e responder em conformidade, arriscando-se  a levar com os nossos soslaios e piadolas. Claro que o "nunca digas desta água não beberei" também aqui se aplica, mas gosto de pensar que há uma coisa muito bonita, e de extremo bom gosto, chamada equilíbrio. E alguma discrição, essa sim mui romântica e doce.

Portanto, gente apaixonada da minha terra, temperai os ânimos e não pretendais fazer um de dois. Respeitai os tempos, dai espaço às companhias, regai a liberdade do outro. Senão, a plantinha pode ficar ajoujada e sequinha de tanta aguinha levar em cima ...

Ainda outra das atrizes mais bonitas do Planeta

Débora Monteiro

E é património nacional. Para além de ser indefetivelmente lindíssima, é uma maravilhosa atriz. (Por acaso por pouco chamava-me Débora, será que isso nos concede alguma fímbria de afinidade estética? Hum.)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ermida Gerês Camping - novidades

Desculpem mas tenho de voltar a chamar a Vossa emérita atenção para este post . Para meu contentamento sempre crescente, a mensagem sobre o Ermida Gerês Camping é já a mais lida deste blog, e o novíssimo parque de campismo do meu irmão e cunhada, na aldeia comunitária da Ermida, em pleno Gerês, é o assunto mais pesquisado para quem chega à Alegoria.

Já muita gente visitou e teve a possibilidade de por lá passar dias maravilhosas, tornando-se aquele espaço simples e de grande bom gosto um verdadeiro encontro de culturas: turistas interessados e de diversas proveniências, portugueses amantes da natureza, uma festa ao ar livre! Passeios até às águas cristalinas e fresquíssimas para sossegar o calor e tantas outras formas de conviver com as coisas mais bonitas e essenciais, com a assistência devida de quem ama o local e igualmente receber os curiosos visitantes de braços e sorrisos abertos.

Merece bem muitas visitas!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

É Agosto

Landscape in August - Jean Royle

Em Agosto (na minha escrita pessoal vou continuar a escrever os meses com iniciais maiúsculas, não lamento) acontecem vários eventos de estrondosa importância (o meu nascimento é apenas um dentre os ditos). Agosto, mês que evoca diretamente o calor, a fruta madura e bichada, o campo repleto de sombras amigas, de raras flores a pascer, de preguiça e de fontes de água fresca!

Agosto, o próprio nome é a gosto. Cores garridas, garrafas de água em mãos de turistas descobridores, viagens em muitos comboios, férias para tantos, reencontros, suor nas têmporas, bebidas como limonada, cerveja, vinho branco, ah!

Mês do sol, dos leões, da dengosidade máxima.

Gosto de Agosto.