segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo e que seja bom para o Povo!




2013!
(Desenho muito lindo de Zim.)

Que o inusitado (já que esta é uma casa solene e sensata) desrealizamento do título que coroa esta especial mensagem de Ano Novo não signifique qualquer demérito, ainda assim, da nossa esperança.
 
Claro que os meus maiores desejos são saúde e paz. Mas depois há palavras importantes para nos ajudarem a colocar o horizonte, ainda brumoso, na devida e benquista perspetiva, e repicarem como inspiradores passarinhos nos nossos ouvidos aturdidos.
 
Já vos tinha dito que arranjara um mote de Ano Novo. Após discussão em alguns círculos próximos, cheguei à conclusão que o dito carecia de mais estímulo e de mais cor. Também por essa ordem de razão podem enternecer-se com o lindíssimo motivo  reveillonesco com que vos brindo.
 
O mote anterior era, pois...
 
Poupança e Fruição
 
Que não galvanizava, que era seco, que se o Vítor Gaspar desse com ele é que era uma alegria, etc., etc..
 
Como sou pessoa de boa vontade, recolhi-me a pensar numa mudança maior, ou então num ajuste que expandisse o mote e lhe desse o merecido acolhimento nos corações impiedosos das gentes.
 
O mote novo é, então...
 
Poupança, Ação e Fruição
 
Passo a explicar o sentido.
 
Poupança: Em todos os sentidos que mais interessar possam: poupar saúde, poupar nervos, poupar dinheiro, poupar a falta de rasgo.
 
Ação: Idem. Mão na massa contra o penoso adiamento. Como canta, e tão bem, a Zélia Duncan, "Faça o que é bom pra você."
 
Fruição: Também a todos os sentidos e razões se aplica. Não se trata aqui apenas de fazer, mas de fruir. De deleite, de capacidade de distensão, de euforia, de fusão, para realmente nos darmos a essa tão nobre sensação das alturas.
 
PAF de seu nome. Não confundir com nenhum programa comunitário. Que tenhamos este bom reflexo PAFloviano para aguentar as diabruras que se seguem e transgredir os limites mais temerários da nossa ladina imaginação. Ah! Nada será igual.
 
A todos os meus queridos leitores, a quem agradeço sempre estremecidamente a companhia, desejo um maravilhoso 2013 cheio de saúde, amor, paz e, já sabem... PAF!
 

domingo, 30 de dezembro de 2012

Balanço de 2012


O Balanço de Zim
(Lindo desenho de Zim)

 
Muito rapidamente, minha gente, e isto para não dizerem que este não é um blog sério e consciente do seu tempo e até da própria mudança do tempo.
 
Fica acima o meu balanço de 2012: fumo pelos ouvidos, fogo nos pés, moca na mão... Ou seja: resistência, pugna e chatices.
 
Mas o fundamental teve lugar, e são essas melhores coisas que contam mesmo.
 
Porém, que o que tanto pesa nesta gangorra tenha outro semblante no ano vindouro, ai sim, ai sim!

sábado, 29 de dezembro de 2012

Com a Ciência Hoje

Diletinhos, aqui fica mais uma colaboração minha com o Ciência Hoje, jornal eletrónico que é uma referência incontornável da imprensa nacional em Ciência, Tecnologia e Empreendedorismo.

Férias feriadas de fim de ano

- Zimmmmmmmmmmm!

A maravilha do não compromisso! A falta de limites da navegação! Ler e ver a desoras! Sair de casa e sobretudo não o fazer!

Oba, oba, oba, dias livres!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Devagar se vai ao longe. Tá?




Já me perpassou pela mente acutilante e com vários folhos de requintada elegância dentro de si que esta coisa das pessoas desejarem quarenta mil vezes um bom ano estraga um pouco o caráter único, precioso, simbólico do momento. Ou ando com mau feitio para além do habitual, mas o certo é que me cansa e quase irrita tanto chilrear de voto, e de votinho, e de revotinho.

Isto, no entanto, não impede que eu já tenha pensado e escolhido o meu mote para 2013. Mas a seu tempo, a seu tempo diletos.

Sejamos mais económicos. Balancemos e estejamos quentinhos e confortáveis nos últimos dias do ano. E depois, no momento certo, nada como vir de lá um grande voto, fresco e com o insusbtituível cunho da atualidade!

Calma. Calma.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Um século depois

Do Sentimento Trágico da Vida - Miguel de Unamuno
Ed. Quarteto


Fotos e notas de Zim

Acabei de ler, nesta madrugada, o que acredito ser um dos livros mais importantes que já me passaram pelas retinas, da autoria de um dos meus escritores preferidos, Miguel de Unamuno. Do Sentimento Trágico da Vida é a mais extensa explanação de cariz filosófico deste grande autor basco, e não posso dizer que foi abrir e não parar mais. Muito pelo contrário. Tenho-o há anos, e há anos comecei a sua primeira leitura, para depois a abandonar. Nos últimos meses voltei a pegar-lhe, sabia e sentia que tinha de lê-lo e que aquela falta de élan passado talvez mais não fosse do que uma preguiçosa resistência de me haver com a magnitude do que sabia ir encontrar. E, está claro, assim foi.
 
O problema que Unamuno coloca é eterno, e tão íntimo para mim como me parece ser tudo quanto escreve. A sensação de intimidade com escritores que nunca conheceremos, cuja vida não aconteceu durante a nossa passagem, cujo tempo não coincidiu exatamente com o nosso, mas em que tantas impressões recebem o acolhimento apaixonado do nosso ser (aí se provando a ausência de anacronia nas paixões), lembra-me o poema de Whitman na barrinha lateral. E de amizade se trata, não? Mas, dizia, o problema que coloca é eterno. O Homem vive na angústia de se saber finito, que é tanto mais aguda quanto sente uma absoluta necessidade de contrariar o seu fim. O Homem quer prolongar-se numa eternidade vida, consciente e descobridora, e o contraste entre a razão que sabe e o sentimento que quer gera a tragédia magna da nossa existência. Como enfrentá-la? Como ser? O que ser? E para quê?
 
Para mim, Do Sentimento Trágico da Vida é um belíssimo libelo contra o que o próprio autor chama de pedantismo da razão, e um testemunho, ainda que dentre o paroxismo da incerteza, da luta, da confusão, da probabilidade superficialmente mascarada de inverosimilhança (num Carnaval fatídico para os nossos corações), um testemunho de esperança, de apelo ao concreto, de gozo do espírito no concreto e de harmonia com o espírito. Tratar-se-á, nesse sentido, e ainda, de uma reabilitação das possibilidades filosóficas com a razão, contra a razão e para além da razão, sem amos e sem amarras. Miguel de Unamuno é um D. Quixote, como se assume, e quer ir, e sente que tem de ir para além das acomodatícias convenções do expectável pelo senso comum. É do senso incomum, da excecionalidade, do fulgor que individualiza e atesta a certidão de unicidade de cada um de nós, que aqui se trata. Um heroísmo estrénuo, uma guerra em que é vencedor quem quer. Mas não quem quer de qualquer forma. Vence quem quer por inteiro o todo, e o todo de si na totalidade, vence o herói que quer apaixonadamente, tragicamente, vitalmente, quixotescamente. Referindo-se à obra Obermann, de Sénancour, Unamuno faz suas as palavras do ensaísta e filósofo francês e apela-nos a considerar que, se de facto se concluir, no infortúnio e na pecha da realidade, que o nada, a finitude, a não eternidade é o que nos espera, ao menos que isso seja flagrantemente julgado como uma injustiça. Que simplesmente não o mereçamos pela nossa paixão, pelo afeto volitivo e bom com que nos conduzimos pela Terra.
 
É simplesmente uma maravilha podermos ler estes escritores majestosos, e que haja editoras, como a Quarteto, que nos possibilitem aceder a tais partes de nós. São partes de nós, leitor. Podem andar espalhadas, perdidas, encriptadas noutras línguas, mas são-nos também. E daí a vontade de partilhar, registar, tirar notas, as mil notinhas que podem ver acima, e que foram intercalando esta longa leitura.
 
A lista dos 50 livros (e outros mais...) de Tamborim Zim vai sendo atualizada à medida da paixão literária, e podem ver aqui qual é a nova menção - difícil!
 
Deixo algumas citações do livro de que hoje vos falo, e cuja leitura terminei exatamente um século depois de ter sido escrito, em 1912. Exorto-vos a que não percam a experiência de o ler. E, já agora, as restantes obras de Unamuno, que incluem romance, teatro, poesia e, fundamentalmente, uma poderosíssima demanda que permanecerá uma  imorredoura inspiração.
 
"Queremos não somente salvarmo-nos, mas também salvar o mundo do nada. E, para isto, Deus. Tal é a sua finalidade sentida. (...) Não é, pois, uma necessidade racional, mas sim angústia vital, o que nos leva a crer em Deus. E crer em Deus, é antes de tudo e sobretudo (...), sentir fome de Deus, fome de divindade, sentir a sua ausência e vazio, querer que Deus exista. E é querer salvar a finalidade humana do Universo."
 
"(...) lutemos conta o destino, mesmo que sem esperança de vitória; pelejemos contra ele, quixotescamente."
 
" (...) é da desesperação, e dela somente, que nasce a esperança heróica, a esperança absurda, a esperança louca."
 
"A minha conduta há-de ser a melhor prova, a prova moral do meu anseio supremo (...). Não há segurança e descanso - os que se podem encontrar nesta vida, essencialmente insegura e fatigante - a não ser numa conduta apaixonadamente boa." 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Sem título

De Victor Sheleg

 
Depois. Mais tarde. Daqui a tudo. No mesmo sítio. Onde não foi combinado. Não. Deixemos estar. Deixemos não estar. Não quero. Mais tarde. Um pouco mais. Mais. Talvez. Noutro Inverno e noutro País. Que horas são. Não é uma pergunta. É uma afirmação. As horas que são. O dia que não é hoje. No café. No outro. Com soja quente. Muito frio. Que horas são? Não sei de cor as agendas do tempo. Em Dezembro. Em Novembro. Parto depois das treze badaladas do século. Um comprimido. Dois vegetais. Duas gramas de peso. Duas gramas a mais. Amanhã. Não quero. Fotocopia esta tarde. Entrega-ma para o ano que vem. Noutro horizonte. As mãos secas. É muito tarde. À porta do cinema em ruínas. Daqui a duas décadas. Férias grandes. Onde? Não posso. Na gaveta que não abre. Procura. Na gaveta que não abre. Talvez eu esteja. Na gaveta que não abre. Talvez eu seja. Um selo descolado. Adio, é muito cedo. Chocolate preto, é cedo. Para chocolate é cedo. Não sei. Onde as minhas malas. Não sei. Desinteressa-me a falta de necessidade de destinos. Não preciso. O telemóvel está desligado. Não tenho bateria. Vitamina. Depois. Compro depois. Farta de dinheiro. Vou desarrumar a casa. Depois arejo. Os bichos precisam de renovadas decorações. As traças, as joaninhas. Perdi o contacto. Perdi o cartão SIM. Perdi o não. À janela. Não sei. Extremo cansaço. Deixemos para amanhã. Não há amanhã. Sim outro dia. Novo. Sem ontem. Sem depois. Isento da arritmia. Do futuro. A pureza do primeiro ruído. Baixo o som. Demasiados os volumes do mundo. Muita matéria. Os barcos. O rio. Nevoeiro. Daqui a nada. Noite estrelada no prato com pão. Devagar. Nada nos consome. A vida é insone. E está.

Acho indecente

Mas não há-de haver Gabriela por quê? Nem Avenida Brasil por quê? Sequer Páginas da Vida por quê? Bah!

Rothko Reina

Yellow, Pink and Lavender on Rose - Marc Rothko (1950)

Para dar cores ao Inverno.

Quem não se rende às arquiteturas cromáticas deste talentoso russo?

domingo, 23 de dezembro de 2012

A Festa

Hoje traduzi poemas do aramaico,
Regozijei com o encontro de faixas esquecidas a ganhar pó
Em velhos discos
Mudei a cor do cabelo, organizei o calendário
Para as próximas três décadas
Da minha vida
Mas não fiz o que mais importava

Hoje aprendi a arte difícil da sensatez,
Da discrição e da paciência
Bordei pensamentos ternos e tenazes
Em fios de cobre
Não quis saber das articulações e entretive-me
A pular entre nuvens
Mas não fiz o que mais importava
 
Hoje vesti, com mil rubores vaidosos
Um vestidinho florido que me fez frio
Sorri, ignorei
Porque me espelhava pela casa silenciosa
Como uma Primavera
Recusei a rima fácil com o sublime nome da estação que eu era
Mas não fiz o que mais importava

Hoje eu pensava-me impecavelmente preparada
Para a festa
Do princípio do mundo
Que é ser em alegria inusitada
Essa que a expectativa acalenta e embala
Nos alienados rigores do tédio
Mas não fiz o que mais importava

Não, não fiz o que mais importava
Na minha pouca jornada
No esmaecer da espera
Não vi o que mais importara
Pela inércia fria dos meus dedos,
Precípite quebrou-se uma pobre quimera
Perdi o curso do rio, errei a estrada
Não fiz o que mais importava
Não fiz o que mais importava
E agora vogo
No mar nado-vivo
De talvez nada
Seca sem queimar e deserdada
Daquilo que desde então
E desde sempre
Mais importava

Polir, repolir, repetir

O frio que aquece
 
A polidez do pensamento é uma virtude, ou antes uma exigência, de grande dificuldade e pesado adestramento. A duras penas, através de incontáveis desgraças equívocas, dentre um cansaço bloqueador. Mas, como tudo, emerge com a necessidade efetiva e chega, depois de desilusões, pseudo-proezas e neblinas, a brilhar com alguma saúde frente aos nossos olhos cansados. A brilhar como um pôr-do-sol, ou uma antemanhã. A reunir os nossos fracassos em esforços, as lancinantes frustrações em rastros de um melhor porvir.
 
Talvez cresça com este refinamento do pensar e, sim, do sentir, uma frieza mais embaraçosa, uma hesitação quanto ao curso do nosso ser com os demais. Desengane-se, leitor. Apenas na maior das claridades possíveis, chegando por vezes a solenes cristais de gelo, conseguirá restituir a réstea de pureza, a experiência de regeneração que tanto procura.
 
Brinde, por que não?

sábado, 22 de dezembro de 2012

Tomas Tranströmer

Mirem a barrinha lateral que trouxe de novo à tona a Jangada Poética Alegórica. Graças a este belo blog, Poesia & Lda. , descobri mais uns poemas boníssimos do sueco laureado com o Nobel.

Poememos.

Soubesse o Hermann Hesse!



Nuvens de Berndnaut Smilde

Bem dizia este brilhante escritor sobre as nuvens que eram uma das fontes de felicidade disponíveis à nossa fruição. Isto no seu pequeno-enorme livro Da Felicidade, que recomendo, e que é ótimo nestas alturas de transição - por exemplo, de ordenado cortado a ordenado esfacelado, que deve ser a grande facécia que nos espera em 2013. Mas avanti.
 
Noutro dia, via maravilha Facebook, soube desta engenhoca entusiasmante do holandês Berndnaut Smilde, um artista que deve ter uma queda pela beleza da ciência, e que foi considerada uma das maiores invenções de 2012 pela Time. Trata-se da produção de nuvens - sim, de nuvens, imaginem o impacto comercial da coisa, se explorada - em espaços interiores, através da combinação correta - ??? - de luz, temperatura e humidade. O efeito é realmente espetacular, há que teclá-lo, e já reclamei uma nuvem como sofá.
 
Estar nas ditas é cada vez mais fácil. Mas, como dizem na minha querida Gabrieeeelaaaa: "Deus é mais!".
 

Drão, Grão, Gilão

Drão (Gilberto Gil)

Alvíssaras, alvíssaras, amigões do fundão do coração! O meu problemão de acentuação já não apoquentará mais, e agora quero é acentuar como se não houvesse mil amanhããããããããããããs! (Calma, não é vírus mas entusiasmo.)
 
De repente, tratou-se de um vão (aliás, não vão - só para acentuar mais um pouco ou, em italiano, un pò) repente. Repito: um só momento. Mudei teclados, tavez tenha tido interferêêêêêêência, não sei. O que posso contar é que acabara de responder a um e-mail sem acentos, com aquela humilhação retraída, típica destes infelizes condicionalismos da existência, e que logo em seguida, no motor de buscão do sapão, o acento encontrou obedientemente a vogal escolhida, e o meu dia já não foi o mesmo: um sol de literacia rasgou o dia cinza, ademais muito feliz pelo regresso da Mana da terra dos longes, de altitudes altíssimas, de ões e ães de distââância!
 
Claro que, tendo sempre um gira-discos dentro desta minha cabeça, me ocorreu logo uma música que amo por demais, de autoria do génio, lindo, inspirador, fabuloso de outro mundo Gilberto Gil: Drão. A canção é, atentem bem neste lance digno dos ases da bola, um grão são de estupendíssimo quilate aurífero. Fiquei a saber, hoje, neste feliz dia acentuado - e pós fim do mundo, o que provavelmente significa que morri e estou no El Dorado - que o Gil fez a música na altura em que se separava da sua ex-mulher, Sandra, a quem chamava por vezes de Sandrão, Drão. Basicamente, importa agora que é uma obra-prima do cancioneiro e do poemáááááário mundial, intitulada por um deleitoso ditongo. Que aqui nos cai tãããããão bem.
 
Abração - e apurada audiçãããããããããão.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Uma Carminha que vale ouro

Terribilis Carminha


Na senda das novelas que ha (desculpem mas nao estou a conseguir acentuar, so me faltava esta), meses me vejo a seguir com entusiasmo, tenho aqui de referir novamente a fantastica Avenida Brasil para deixar um recadinho breve mas veemente: nao percam o desempenho extasiante, fantabulastico, esmagador da Adriana Esteves no papel da perfidissima Carminha. De degustar e querer mais.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Vá de autocarro o escambau!

- Vem, vem, Zinzinha!
- Nãooooooooooooo!!!...
 
 
Diletos, estou aqui que não me aguento. Eu bem sei que sou uma pessoa porcelânica, frágil, um ente etéreo que se defende mal das agruras da urbe. Mas ou é da idade, ou é a dita urbe que está a ficar pior, ou pior para mim na medida da minha tolerância quase zero.
 
Que caudal lamuriento vem a ser este, querida Diva?, podem perguntar. Narro então, na economia gentil da síntese, o motivo do meu desgosto. Hoje fui assistir, labor l'oblige, a uma interessante conferência ali para os lados do Lumiar. Felicito-me agora extremamente por ter optado por ir de taxi de manhã, uma vez que lá deveria chegar um pouco antes das nove horas e, não tendo passe e não dominando o local, seria o mais avisado. O pior foi o regresso. Dez horas depois da chegada, resolvo apanhar o autocarro para poupar os custos do labor com a deslocação. Pergunto a uma solícita senhora pelos "buses" e lá me enfio dentro de um, aguardando, reparem, a estação terminal, onde teria de sair. Já estava com as costas moídas por estar todo o dia sentada na mesma posição, e a banquinha do autocarro só conseguiu deixar-me ainda mais desconfortável. E rodava, rodava, rodava... Sentia-me azamboada, com aquela má onda que as luzes, as curvas e o abanicar destes mostrengos tão facilmente provocam a almas assim sensíveis. Hum... qual azamboada! Nauseada, era o termo. E arranca, e prossegue, e eu inundada pela minha disposição mortiça.
 
Saio finalmente na última estação, de onde cheguei meio enviezadamente (com a ajudinha dos saltos de sete centímetros, para mim uns Empire State Buildings do mundo do calçado) até ao metro. Foi chegar à plataforma e partir um. Sem desesperar, esperei pelo próximo e escolho sentar-me, apalermadamente, no lugar dos "palermas", ou seja, naqueles bancos laterais que às vezes prefiro porque há um certo espaço não obstante alguma excessiva intimidade de anquinha com anquinha. Seja. Tentava ordeiramente chegar ao lugar escolhido quando um piolhinho com a sua mãezinha, industriado pela progenitora a salvaguardar os dois lugares, corre para o sítio que eu escolhera. Fingi um sorriso compreensivo e acabei por me sentar no detestável lugar do meio de outro conjunto de banquinhos laterais - onde até acabei ter um espaço confortável. Quero dizer...confortável não é a palavra. Se já estava enjoada, ir novamente até uma estação terminal e desta feita "de banda" foi realmente a opção indicada. Olhava para a minha cara refletida no vidro da janela em frente e dir-se-ia que encolhera, ou mesmo acachapara. Estaria com os olhos mais fechados por causa do esgar de indisposição que me toldava por inteiro?
 
Depois foi só andar mais vinte minutos até ao supermercado, e por fim aterrei em casa, acreditem se quiserem, sem ser de gatas.
 
Ai como é maravilhoso poder ir e vir todos os dias a pé para o trabalho. Graças, graças, salve. Tenho de valorizar sempre essa benção, quando estas experiências de horror sucedem.
 
Conclusão sobre as campanhas "ide de bus que é muito bom e fresquinho e verde": o escambau!

domingo, 16 de dezembro de 2012

Tambo loves Rio

Rio de Janeiro (Copacabana)
 
 
Querido Rio meu,
 
Nem imaginas as saudades que tenho de ti. Neste instalado desconforto lisboeta ante-inverno, destacam-se da lonjura as cores invejáveis das tuas orlas e o meu coração aquece-se na reminiscência das vistas altas e quentes sobre a extasiante curva de Copa desde o Pão. Ah, quanto sabor tem esse Pão, e alcançá-lo desde a trilha da Urca?! Mata na cidade e o mar a abrir-se dentre o arvoredo.
 
O charme do teu centro alcança um auge apolíneo nos perfeitos enfeites da Colombo.
 
Nadar no Arpoador e deixar que o sol se me ponha com os Dois Irmãos envoltos na auréola alaranjada dos últimos suspiros diurnos, ver a Lagoa cheia de luzes a antecipar a noite carioca sob os pés. Mesinha e violões no Vinícius. Ansiar todos os teus lugares e ser em todos.
 
Para tudo se acabar nunca. Nunca findo este amor.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Vértice

Fotografia de Madalena Ávila


E na simulação assombrada de lua descobri o ninho radical da noite.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Em Tom de natureza apaixonada

Tom Jobim e Banda Nova - Borzeguim (Tom Jobim)
 
 
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim não compunha só canções lindas, cheias de brilho, sensibilidade e espírito. Tom Jobim amava a natureza e em muitas das suas obras vertia com delicada beleza e comovente precisão as preocupações ecológicas que insistia em não calar.
 
Hoje ouvia este Borzeguim e achei que, ainda por cima sendo sexta-feira e com a grã chuva a desabar sem freio e libérrima, caíam aqui igualmente muito bem esta letra e música. Imperdível.
 
Borzeguim
 
Borzeguim, deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
Hoje é sexta-feira de manhã
Hoje é sexta-feira
Deixa o mato crescer em paz
Deixa o mato crescer
Deixa o mato
Não quero fogo, quero água
(deixa o mato crescer em paz)
Não quero fogo, quero água
(deixa o mato crescer)
Hoje é sexta-feira da paixão sexta-feira santa
Todo dia é dia de perdão
Todo dia é dia santo
Todo santo dia
Ah, e vem João e vem Maria
Todo dia é dia de folia
Ah, e vem João e vem Maria
Todo dia é dia
O chão no chão
O pé na pedra
O pé no céu
Deixa o tatu-bola no lugar
Deixa a capivara atravessar
Deixa a anta cruzar o ribeirão
Deixa o índio vivo no sertão
Deixa o índio vivo nu
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa, deixa
Escuta o mato crescendo em paz
Escuta o mato crescendo
Escuta o mato
Escuta
Escuta o vento cantando no arvoredo
Passarim passarão no passaredo
Deixa a índia criar seu curumim
Vá embora daqui coisa ruim
Some logo
Vá embora
Em nome de Deus é fruta do mato
Borzeguim deixa as fraldas ao vento
E vem dançar
E vem dançar
O jacú já tá velho na fruteira
O lagarto teiú tá na soleira
Uirassu foi rever a cordilheira
Gavião grande é bicho sem fronteira
Cutucurim
Gavião-zão
Gavião-ão
Caapora do mato é capitão
Ele é dono da mata e do sertão
Caapora do mato é guardião
É vigia da mata e do sertão
(Yauaretê, Jaguaretê)
Deixa a onça viva na floresta
Deixa o peixe n'água que é uma festa
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa
Deixa
Dizem que o sertão vai virar mar
Diz que o mar vai virar sertão
Deixa o índio
Dizem que o mar vai virar sertão
Diz que o sertão vai virar mar
Deixa o índio
Deixa
Deixa


Uma Bruna

Bruna Lombardi

Dentre a chuva cai
O último ente
O único duende do meu Símbolo
Não há nada que, monstro cicatrizado sedento,
O alcatrão não traga
Não roda
Não casa às costas
Não desfeita asa
Não anel
Não desquite
Não ombro com alça
Não mistério, vã notícia
Que o alcatrão não traga
Enquanto se esparge, raivosa e lúbrica
A extenuada metáfora de renovação
Da água
Nada
No mar desfeito de alívio
Uma tempestada lassa, a rasgar memorandos vitais
E expande-se em música lúcida, fina
A grande nuvem
Branca
Uma tépida impressão
De não se dever coisa alguma
Não água, não alga,
Algo que desague
Alma, bruma nenhuma
Ouviste, Bruna?
Nada.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Cauã

Cauã Reymond
 
É engraçado apenas ter percebido nos últimos dias que um dos personagens principais de uma das novelas que sigo com interesse (para além de Gabrieeeelaaa), e que é excelente especialmente pelas soberbas, sublimes interpretações que comporta, Avenida Brasil, é o Cauã Reymond. Quanta naturalidade, muitíssimo convincente, com uma aura de menino rebelde e a um tempo doce. Interessante o facto do personagem em criança já ter sido interpretado por um maravilhoso ator juvenil, Bernardo Simões de seu nome.
 
E o Cauã tem também um rostinho muito cativante, há que convir. A Grazi Massafera soube escolher, está visto!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Parabéns Manoel de Oliveira!


Manoel de Oliveira

O Convento (1995)


Party (1996)

Mirem bem... reparem: 104 anos!

Um dos nossos mais distintos ícones culturais de todos os tempos, e que tão bem representa Portugal com o seu talento e a sua exemplar produtividade. São estes os agentes de inspiração por excelência, vejam todos o que se pode fazer de uma vida, seja qual for a área de trabalho em referência.

Depois do recente desaparecimento de outro ícone, brasileiro mas tão mundial quanto Oliveira, é muito bom, reconfortante mesmo, assistirmos hoje ao cumprimento desta nova idade de um dos meus realizadores preferidos.

Que conte imensos, no tempo e na intensidade, e que vinguem todos os seus muitos projetos, planos, ângulos, histórias.

Acima deixo dois trailers de dois dos seus filmes de que mais gosto. Dentro das suas películas sinto-me distensa num sofá em casa, em espaço íntimo. Assim identifico as maiores empatias artísticas, sou fidelíssima a tais impressões.

Brinde.

O mistério da Musa



Ana Paula Arósio
(A terceira foto mostra a atriz no dia do seu casamento.)

Imaginem uma daminha tão mas tão bonita, que é impossível não admirar de todos os ângulos e perspetivas. Um sonho e uma miragem. Essa intangível beleza, entretanto, não se alimenta apenas da sua fisionomia. Expande-se e acentua-se na entrega aos personagens que interpreta com mestria, dramaticidade e graça. Prostituta indomável, empreendedora coquete, mulher moderna apaixonada e amante das artes, professora em agudo sofrimento após desquite, são algumas das vidas a que soprou o fôlego do seu talento com uma infatigável e contagiante energia, na televisão e no cinema, ela que é também uma entusiasta do teatro onde igualmente atuou.

Os seus olhos são dois pedaços do céu mais azul, o sorriso uma constelação de sóis. Uma boneca, uma princesa, um perfeito colírio.

Pelos seus 35 anos (terá lido A Cidade e as Serras?), a bela Dama decide, repentinamente, abandonar a novela que apenas começara, faz as malas e, pouco tempo depois, rescinde o seu contrato com a Globo. Desaparece dos écrans, da cidade, da festa social. O sururu desenvolve-se, o mistério adensa-se, o mundo do espetáculo e da imprensa agita-se, asfixiado de curiosidade.

Finalmente, descobre-se que a fabulosa atriz, com o mundo a seus pés e a fama alta, altíssima, resolvera retirar-se para o seu sítio no interior de São Paulo. Aí casou, numa cerimónia privada digna de conto de fadas, chegando a cavalo ao encontro do seu príncipe, que se aproxima também nos mesmos preparos.

A partir de então muito pouco se tem visto, na cidadezinha próxima da quinta pouco aparece, e quando se avista contam que tenta passar o mais despercebida possível. Vive com o marido e uma assessora, e já foi comprovado por repórteres mais afoitos que o sítio é rigorosamente vigiado e guardado. As propriedades urbanas da atriz foram vendidas, ou encontram-se em processo de venda. Em declarações que se lhe conhecem, diz a misteriosa que não pensa voltar a representar, ainda que possa mudar de ideias no futuro.

O que fará ela durante os seus dias? É a felicidade o que finalmente encontrou, nas sombras do seu sítio, ou o letárgico esquecimento da cobrança e do assédio? O que avistará da sua janela?

Desejo-lhe naturalmente o melhor. Mas é grande a saudade de Ana Paula Arósio, e há uma certa densidade encantatória neste enigma.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Apelo Urgente

Queridos leitores e amigos,

Quando as más notícias batem à porta é hora de reagir, mesmo entre a dificuldade e a tristeza que quase incapacita os atingidos para o que quer que seja. Gostava, por isso, de contar com a vossa solidariedade e divulgação, na medida do possível, relativamente ao apelo lançado pela querida Lamparina, no seu blog. Pode acontecer em qualquer casa e a qualquer família, e a dor pode alojar-se em qualquer coração.

Muito obrigada.

Beijinhos e abraços tamborínicos.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Duas observações do maior interesse

Crashhhhhhh
 
 
Uma
 
Duas lâmpadas fundidas em dois dias consecutivos. Sinal dos tempos obscuros, prevenção de gastos adicionais na fatura da eletricidade (quem nem quero ver com tanto aquecedor)? Certo é que me ocorre a apoteótica expressão de Pascoaes, que diz ser a "treva cada vez mais escura e a luz cada vez mais clara" (não é bem assim mas é a ideia).
 
Duas
 
O facto da programação televisiva de fim-de-semana ser absolutamente deprimente deve ter um objetivo altamente pedagógico: ficamos ansiosos pela segunda-feira. Há trabalho, mas sempre temos as novelas! Ainda bem que tenho filmes novos.

18 anos sem Jobim

Passarim (Tom Jobim) - Tom Jobim e Banda Nova
 
 
Hoje, em amigável facécia, perguntaram a propósito de uma foto minha, no FB, se ali tinha 18 anos. Respondi que tinha o dobro, uma vez que foi tirada ontem. Hoje ainda, vi que Antonio Carlos Jobim nos deixou há exatamente 18 anos. Aí sim, com frescos 18, tinha acabado de entrar na Faculdade, e sabia que um tempo muito bom se ia abrir para mim. Como é que o tempo passou? Continuo perplexa, e algo me diz que ainda mais o ficarei daqui em diante.
 
Nessa altura ainda não amava a obra magnífica de Tom Jobim, porque não a conhecia bem. Lembro-me, no entanto, da capa da Veja com a fotografia dele, lindo, e o título O Maestro. Lembro-me da frase do João Gilberto, referida nesse número: "Tom e bom é a mesma coisa." Há muitos anos que considero Tom Jobim e Caetano Veloso os maiores, melhores, mais essenciais compositores do mundo, de todos os tempos, lembranças, reminiscências, memórias, impressões. Claro que para mim, no meu mundo.
 
Tenho saudades deste Tom em permanência, e será sempre, com muito poucos noutras áreas artísticas, um dos meus mais amados criadores.
 
Helena Jobim, sua irmã, escreveu um livro maravilhoso e comovente (mas nada recente), intitulado Antonio Carlos Jobim - Um Homem Iluminado. Chico Buarque foi chamado para escrever o prefácio, mas teve um golpe digno do génio que também é: um CD com trechos inéditos dos ensaios de Jobim irmana-se ao livro numa experiência memorável.
 
Sinónimo de beleza, e sempre disponível no seu legado a um clique do extremo bom gosto e da procura pela mais intensa vivência estética e emocional.
 
Saravá, Tom!



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Linha, curva

Linhameyer (Carlinhos Brown/George Israel)
 
 
Talvez a homenagem mais doce, feita há uns anos por Carlinhos Brown e George Israel.

Poemeyer

Oscar Niemeyer

Poemeyer

Neste preciso minuto
O Pão de Açúcar está à míngua
De tristeza
A olhar para a tua flor de Niterói
Por este breve minuto
O mundo suspenso, absorto
Nas tuas linhas
Puras cadências
Sem som
Na verdade não queria apenas um vestido teu
Sim vestir a leveza
Das hastes intocadas
Que se evolam do espaço
Fingem sediar-se
Quando na verdade
Nunca são apenas
Nunca são apenas
Elas

Voa sopro
Chega ventura
Neste momento qualquer lágrima
É arquitetura

A vida é sopro, diz Niemeyer

Museu de Arte Contemporânea de Niterói - "como uma flor", nas palavras do arquiteto. 

O tremendo Palácio do Planalto - Brasília


Museu de Curitiba

Catedral de Brasília

Concebido, desenhado, feito para viver por Niemeyer. Eis acima apenas algumas das suas obras, sendo a primeira aquela que conheço das apresentadas, e que não me canso de ver. Assim são os verdadeiros talentos, inexauríveis. Acontece com as canções que não passam de moda, com os filmes e livros a que voltamos ao longo da vida com a mesma emoção. As linhas puras, o convívio translúcido entre sonho e realidade. E uma grandiloquente exuberância da harmonia.
Há uma ausência nas ondas do Rio, neste momento, doravante.

Triste é viver sem Niemeyer



Oscar Niemeyer deixou-nos há pouco. Menos beleza presente, beleza futura no mundo. Um património de esplendor. Amado e inspirador. 104 anos. Inesquecível.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Momento vaidoso

Colar - NeckBecas
(Fotografia da criadora)

Comprei um colar pela sister net. Conheci a página da NeckBecas e achei muito interessante a linha refrescante que segue e os materiais das suas composições surpreendentes, que acrescentam um toque de princesa a todas as daminhas.
 
O meu escolhido é o que mostro na fotografia. Não é mimosíssimo? Gostei muito da barra, e quando vi o resultado final fiquei contente e supreendida, o que é sempre uma dose dupla muito bem-vinda.
 
Tão bonito quanto o colar é o profissionalismo, a atenção e a simpatia da criadora. Excelentes razões para visitar o seu atelier no Facebook.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Arrumações bloguísticas

Repenicados leitores, fiz aqui uma arrumação da Alegoria da Primaverve que custou mais do que muita organização de guarda-roupas (não que eu cumpra esta última ação em modo nobre). Bem sei que o resultado estético é bastante frustrante, mas que querem, ultrapassa-me a maneira de ajeitar as linhas, as colunas and so on, e assim fica até ter uma revelação.
 
O que importa é que, para o pior e para o melhor, este petit blog tem mais de 450 posts o que, para o seu tempo de vida, me deixa contente. Resolvi-me, pois, a proceder a um arranjinho temático, que não abrange todas as mensagens, mas sim as que arrumei nos tópicos selecionados: entrevistas, hiperidrose, veganismo, livros & escritores, música, pintura, cinema e cª., algumas das fotografias e poeminhas de minha autoria aqui partilhados. Cada separador contém a lista de posts sobre os temas indicados, naturalmente que devidamente linkados. Assim será bastante fácil aos interessados navegar com alguma orientação nesta grande amálgama palradora.
 
Decerto que tudo o resto - aventuras e desventuras, outros palpites e deambulações poderão continuar a pesquisar e a ler, com êxtase incontido, no arquivo lateral.
 
Sejam sempre bem-vindos, e um especial bem-haja aos novos seguidores from the States.

Sem esquilo mas a piscar o verso a Ésquilo


Nilo

Sem esquilo mas a piscar o verso a Ésquilo
 

Aquém do Nilo,
Além do Nihil.

Mas como as coisas mudam
Consoante as perspetivas
As geografias
As loucuras

Posso bem estar aquém do Nihil,
Além do Nilo.

A sorte é quem nem eu, nem alma alguma
Teremos tempo, azar, curiosidade ou sobrepujante
Tédio
Para descortinar a rota por cima da linha quezilenta da cidade
E entender alguma coisa
Do que quer dizer aquilo.

E podia continuar por optar
Ocupar-me a alimentar o esquilo
Mas para ridículo
Já me basta o desgraçado ato de o pensar.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Tamborim Zim entrevista... Rui Zink

A Instalação do Medo - Rui Zink

Edição da Teodolito

"A literatura que me interessa é sempre uma resposta à realidade."      Rui Zink

E o mês começa da melhor forma. Já anteriormente pedira aos meus sensíveis leitores o uso imprescindível de protetor estelar. Pois na senda dos meus brilhantes entrevistados, que podem encontrar mais abaixo, na barrinha lateral multitasking desde bloguium, apresento agora uma entrevista quentinha e a estalar: Rui Zink é a nossa companhia de hoje.
 
Todos o conhecemos: escritor, professor universitário, conversador (inspirador, exasperante e delicioso), um demandante que, nas palavras que usou numa das respostas, acrescenta "pontos". E a mim, como sua ex-aluna, acrescentou vários no que respeita à minha maneira de olhar e entender a Literatura e o meu próprio escrevinhar.
 
Penso, não sem emoção, na coincidência que foi ter sido aluna, com dez anos de idade, da sua mãe, Alice Zink. Zim meets Zinks.
 
Estou muito curiosa com o seu novo romance, A Instalação do Medo, cujo vídeo de apresentação podem ver acima. Depois dir-vos-ei de minha justiça. Maria Alzira Seixo, Prémio Vergílio Ferreira 2011, considera-o: "(...) o livro da nossa época. Magnífico!".
 
Fica a entrevista e o meu agradecimento à generosa disponibilidade de Rui Zink.
 
Tamborim Zim  - A Instalação do Medo cumpre uma metáfora ou está impressa, nesse livro de capa dura, com o peso da literalidade?

Rui Zink -  Ambas as coisas. A literatura que me interessa é sempre uma resposta à realidade.

TZ - Tenho muita curiosidade sobre os processos criativos. Como é que começa a conceber uma história? Blocos de notas, folhas afixadas pelas paredes da casa com esquemas mirabolantes, ou tudo vertido a jato e sem filtro no computador?

RZ -  De todas as formas e de todas as maneiras. Passados tantos anos e tantos livros (fiz o primeiro romance, graças a Deus muito mau, aos 18) continua a ser um mistério. Mas durante os primeiros anos ter uma disciplina ajudou-me. Era cinco páginas diárias. Hoje são menos. Muitas ideias vêm-me em conversa ou quando leio jornais ou vou de metro. O segredo é estar disponível.

TZ - Voltando ao literal... Imagine que podia decretar 5 leis que nos ajudassem a sair desta loja de horrores. Quais seriam?

RZ -  1) Proibir a hipocrisia. 2) Multar a demagogia. 3) Obrigar os filhos dos ministros a frequentarem a escola pública. 4) Interditar por dez anos que ex-governantes ocupem cargos em empresas com as quais negociaram, em nome do Estado, com prejuízo óbvio para o Estado. 5) Duplicar, no legislador e classe dirigente, os "sacrifícios" que pedem aos outros.

TZ - Enquanto professor, como é que avalia o espírito dominante dos seus alunos? As letras continuam a motivar, apesar de ser, aparentemente, um interesse insulado do real, sem lugar no mercado de trabalho? Ou trata-se da instalação da letargia?

RZ -  Há uma disponibilidade que os alunos têm sempre, o problema é que nem sempre sabem que a têm. O que me irrita é quando entendem como devaneio o esforço que faço e o tempo que gasto para lhes despertar "o monstro".
 
TZ - Quais são os seus três escritores de predileção, no momento?

RZ - Os desta semana? Ricardo Marques, João Silveira, Alexandra Antunes. Jovens poetas pouco conhecidos, mas os poetas (ao contrário dos prosadores) não precisam de ser muito conhecidos.
 
TZ - Voltando-nos um pouco para a poesia. Considera que há ainda alguma metáfora a ser criada, uma única hipérbole que impressione, alguma coisa nova pela qual valha efetivamente a pena escrever um poema?

RZ - Sim. Há sempre. Tal como não podemos pensar que só existe o que está à nossa frente, também está por escrever a metáfora que nos salve, a hipérbole que nos redima, a coisa nova que nos devolva ao mundo. Mas como ouvi um senhor dizer a propósito do Messias (Leibowitz), o verso que nos salve vem aí, mas se vier aí é porque não é o verso que nos salva, apenas um falso verso. Porque a condição mesma do verso que nos salva é "vir aí", Um dia. (E esse dia já não está tão longe como isso. Mas não, não é amanhã. É "um-dia".)

TZ - Não 7 cartas, mas 7 frases. Quais seriam as 7 frases que dirigiria a um jovem escritor que lhe pedisse conselho?

RZ - 1) Escreve para ti, mas publica para os outros. 2) Lê como um escritor, escreve como um leitor. 3) O que tens para dizer ao mundo? 4) Como contas acrescentar um ponto? 5) Há desculpas para não dormir com a Angelina Jolie ou o Brad Pitt, não há para não ler, escrever, viver. 6) Traz sempre um caderno no bolso e uma caneta nos olhos. 7) Quando estás a ir de casa ao café estás já a contar uma história.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Song for Sunday

Shelby Lynne canta Dreamsome
 
 
No fim-de-semana passado, autêntica Bridget Jones entre abafos e chocolates, voltei a ver o filme homónimo. Para que saibam que na retina não me passam só Truffauts, Antonionis, Viscontis e quejandos. A verdade é que a película é uma delícia, a Renée Zellweger  um assombro, e todos os protagonistas entram na dança com muita convicção e talento.
 
Dentre o filme, esta encantadora canção, Dreamsome. Já a gravei com o KeepVID e é um tal de repeat que é uma festa. Uma pessoa fica logo predisposta à paixão - mais que não seja, pelo bombom mais próximo, disponível e absolutamente digerível. Sim, sou uma tia-avó e molho biscoitos no chá.
 
Lembram-se do filme, e da cena da apresentação do livro? De vez em quando as comédias românticas são muito bem-vindas, se forem como esta - um primor.
 
Beijinhos, minhas almas gentis.

A esmo mas independentes

A Restauração (1640) num lindo painel em azulejo

Não sendo particularmente nacionalista e até me considerando uma cidadã da Ecúmena, também não partilho com agrado da ideia do "venha mas é a Espanha tormar conta de nós". Até porque os nossos manos também não estão lá com essa bola toda. Só se Portugal se unisse à Catalunha (caso futuramente seja independente, e sobre isto ainda não tenho opinião formada), já viram o charme? É que me mudava de um salto para Barcelona. Pensando bem, porque não agora? Bom, bom, deliro. Falando em bombom... Hoje é dia de ir adotar uns Mon Chéris. Precisam de um lar e está realmente muito frio.
 
Todo este gracioso disparatar para fazer convosco um brinde (com leite de aveia e chocolate quente com uma colher de sementes de chia), à esperança restaurada, nem que seja a esperança no sonho, ou ao sonho da esperança!
 
Ai este post... Olhem, é a imagem do País.

Contra o Bullying

O Bullying
 
Pois que entramos hoje em Dezembro, do ano (e que ano!) de 2012. Para já, a Restauração da Independência sinaliza-se hoje. Por que não aproveitar o dia para celebrarmos a nossa própria necessidade de restauração, e de correção de hábitos, posturas, palavras e gestos que se assemelhem, no exercício e na consequência, ao dito bullying ? A mensagem abaixo corre no Facebook e achei-a tão interessante que é a primeira coisa que quero partilhar convosco neste 1º do último mês do ano. Bullying ou a folha que, amarrotada, não volta a ser lisa.
 
 "BULLYING

 Uma professora quis ensinar à sua turma os efeitos do bullying.
Pediu-lhes para seguirem as seguintes instruções. Deu a todos os alunos uma folha de papel e disse-lhes para amachucarem, e para deitarem para o chão e para pisarem.
Resumindo, podiam estragar a folha o mais possível mas não rasga-la. As crianças estavam entusiasmadas e fizeram o seu melhor para amachucarem a folha, tanto
quanto possível.
...

A seguir a professora pediu-lhes para apanharem a folha e abri-la novamente com cuidado, para não rasgarem a mesma. Deviam de endireitar a folha com muito cuidado o mais possível. A senhora chamou-lhes atenção para observarem como a sua folha estava suja e cheia de marcas. Depois pediu-lhes para as crianças pedirem desculpa ao papel em voz alta, enquanto o endireitavam. Eles mostravam o seu arrependimento e passavam as mãos para alisarem o papel, mas a folha não voltava ao seu estado original. Os vincos estavam bem marcados.
A professora pediu para que olhassem bem para os vincos e marcas no papel. E chamou-lhes atenção para o facto que estas marcas NUNCA mais iriam desaparecer, mesmo que tentassem repara-las. “É isto que acontece com as crianças que são “gozadas” por outras crianças”, afirmou a professora.
Podes dizer: Desculpa, podes tentar mostrar o teu arrependimento, mas as marcas, essas ficam para sempre. Idosos com 80 anos ainda conseguem lembrar-se com mágoa quanto foram gozados na escola primária e/ou secundária.
Os vincos e marcas no papel não desapareceram, mas as caras das crianças deram para perceber que a mensagem da professora foi recebida.
Se és CONTRA bullying copia esta mensagem e manda para todos os teus amigos e todas as crianças.
O bullying estraga mais do que nós podemos imaginar!!!
Evitem, ajudem e denunciem..."