segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Zim decreta

Décret

C’est decreté, mon amour,
L’atroce eclipse du jour
Après aperçu si lointaine l'ombre discrète de ton visage
C’est decreté la fin de la pensée, de l’oblique nuage devant nous
Les sorcières apportent leur feu destructive et indigné aux forêts
Elles ont la rage des saints, l’epuisement des fêtes
Le curieux terminus d’une particulière illusion est maintenant étudié
À Harvard et Massachusets...
Le sublime odeur du future ne m’emue pas encore
Peut être qu’aprés du café…
C’est decreté, mon amour, le secret écoulement de mon sang
Le matin hausse; le matin progresse; le matin s’enfuit dans la musique du pick up
C’est juridiquement announcé le chagrin d’un enfant
C’est decreté, doux garçon,
Cette fin
Et cependant, peut être qu’aprés du lait de riz chaud
Le bon odeur du future rentre et s’installe, confortable et si chic
Au mon divan
Il est tôt
 
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Decreto
 
Está decretado, meu amor,
O atroz eclipse do dia
Depois de vista tão distante a sombra discreta do teu rosto
Está decretado o fim do pensamento, da nuvem oblíqua à nossa frente
As feiticeiras trazem o seu fogo destrutivo e indignado às florestas
Têm a raiva dos santos, a exaustão das festas
O curioso término de uma particular ilusão é agora estudado
Em Harvard e Massachusets
O sublime odor do futuro não me comove ainda
Pode ser que depois do café…
Está decretado, meu amor, o secreto escoamento do meu sangue
A manhã nasce; a manhã progride; a manhã foge na música da pick up
Está juridicamente anunciada a tristeza de uma criança
Está decretado, doce rapaz,
Este fim
E no entanto, pode ser que depois do leite de arroz quente
O bom odor do futuro entre e se instale, confortável e tão chique,
No meu sofá
É cedo

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

As micro saquetas para as compras do Pão de Açúcar

Andava eu a fazer umas comprinhas básicas de fim de dia, quando fui surpreendida pelo comentário da minha "vizinha" da fila para a empregada: "Ah, agora têm estes sacos pequeninos? Mas não tinham, pois não?" Nitidamente a senhora não queria acreditar naquela realidade, e tentava beliscar-se para perceber se era efetivamente uma novidade... e era.
 
Pois as saquinhas de plástico parecem roupa lavada com o programa errado. Constituem uma versão ridiculamente pequena dos sacos de compras normais, e mais parecem saquinhas para as compras de tachinhos e coisas de crianças.
 
Chega à minha vez e disse logo que se era para me dar um saco daquele tamanho não valia a pena. A simpática menina pediu desculpas. Quando acabei de pagar, ainda disse que considerava muito mau que numa superfície daquelas se pensasse que as pessoas tinham compras que coubessem naqueles saquinhos - e peguei num com os meus dedinhos de diva, para exemplificar a ninharia. Que agora exigem às meninas da caixa que gastem muito menos sacos, e que já tinha ouvido da chefe, que etc..
 
Vim a refletir irritadamente no assunto durante o percurso para casa quando me ocorreu que, há mais de um ano seguramente, e naquele mesmo supermercado, ficara surpreendida por ver tão poucos empregados nas caixas. À minha questão, esclareceram-me que houvera cortes drásticos no pessoal, e que tinham sempre receio do futuro. Cogitei que, ao pé daquilo, o tamanho do saco era defecativo. Porém, a verdade é que me custa a crer que estes gigas-supermercados não tenham ainda muito bons lucros, ou situação para não aborrecer os clientes com pantominas do ridículo deste género. Estarei enganada?
 
Como disse à funcionária, mais valia cobrar os sacos. Até defendo que levemos cada vez mais sacos para compras, que se evitem plásticos (apesar de reciclar todos os meus), etc.. Mas nem sempre uma pessoa sai artilhada com toda uma ferramenta aquisitiva para investir sobre a grande superfície.
 
Isto está tudo fuinha ou é mesmo da crisis?
 
Irritam-me muito e boicoto. Ai boicoto. Isto não se pode!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Amor ao primeiro verso

Estimado leitor, distenda-se neste Domingo que ameaça ( deliciosa ameaça) ser enorme para quem teve insónias. Mire a barrinha lateral da Jangada Poética Alegórica, e entenda-se no ilimitado sentido de que Manoel de Barros impregna as suas palavras, as suas imagens, as suas monumentais e vísceras - vísceras e não apenas viscerais - cogitações.
 
Incogitável talento de 97 anos, nascido no Mato Grosso, Cuiabá.
 
Conheço muito pouca coisa, mas foi amor ao primeiro verso.
 
Não se explica? Explica-se; amplia-se; poeta-se.
 
Amorável, mil vezes amorável esta "despalavra".

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Amar pintura rega a vida


Lying Nude - Félix Valloton


E a íris, e a pupila, e a retina, e diria mesmo que o pavilhão auricular.

Valha-me o bom gosto das páginas que passeiam, elegantes, no feed do meu Facebook. Ao olhar para esta pintura de Valloton, enfim... Como não amar?

Ressabianço ma non troppo

ihihihih
 
Sina (Djavan)
 
 
Isto para início de ano não caía nada mal era uma nesga de céu azul. Êta dias molhados, densos e desconfortáveis! Claro que depois de ver as tragédias que o mau tempo anda a causar na Europa e não só, temos de admitir que a situação aqui não está ainda tão extrema.
 
Mas que é dos planos retumbantes de renovação, reciclagem, viragem, voragem, transformação, ão, ão, ão, ão?
 
Se, como eu, andam transtornados da monita com a intempérie; se feitas as contas concluem que seria tão melhor voltar imediatamente às férias; se estão tentados a achar que a beleza dos novos anos se fica pelo réveillon, esperem, parem. Mirem a fotinha acima. Inspirem e expirem mui, mui lentamente, cinco vezes seguidas. Até pode ser mais. Ouçam os reluzentes Djavan e Caetano, igualmente supra. Sempre supra. Os meus Artistas vivos preferidos dentre todos, com Caetano à frente. Tanto quanto ele, só Tom Jobim. Saudades eternas. Impossível não sorrir muito ao vê-los, tão bons e tão jovens, flores sem vergonha desabrochadas, neste alegre encanto. (E pensar que me lembrei de pôr aqui esta canção por causa da palavra "réveillon", que usei acima. Por si só, as palavras já merecem a viagem.)
 
Se nada disto der certo, mandem um e-mail. Garantimos ativo pensamento sobre o assunto.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Mimi Kirk aconselha

Atentar e divulgar mensagens positivas é uma das minhas boas intenções catorzianas. Recomendo a leitura das 10 dicas para um ano melhor, da lindíssima setuagenária Mimi Kirk. Aqui.

O sumo verde... o sumo verde. E por que raio não?

sábado, 4 de janeiro de 2014

Prosa de jato



 
- Saudações das águas, leitores de Zim!
(Fotos de Zim)
 
Pois o certo é que a terra não é silente, fala em jorros, conversa por ventos que fazem de enormes arvoredos palhinhas quase a arrancar-se do chão, tantas as voltas que dão sobre o seu exasperado corpo movido a velocidades ingentes. E particularmente a água, essa cantarola, sussurra, grita e manifesta-se, artista ímpar, de todos os modos possíveis. Pling, plong, catarata-mirim através de escadas de pedra dentre muros centenários de pedra, ploaffff, alagamento em pleno chão, raubaumbaummm, a ribeira que se desprende de si, para hegelianamente a si voltar.
 
Último passeio das férias. Água corrente.
 
Não querer ir, mas ter de.
 
A água, o vento, o sol, o céu e a peugada das coisas amadas trazer me ão de volta.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A lesma peripatética

- Saravá alegóricos!...

Vejam só a fotogénica senhora Lesma com que me cruzei num dos meus passeios campestres. Toquei-lhe levemente com a ponta de um pau e encolheu-se prontamente, ficando assim meio arqueada e à defesa.
 
2014, não enlesmais, no entanto, sim? Não enlesmais! E porém... oh, como queria continuar a passear por aqui e a encontrar a minha amiga lesma!
 
Lesma eu seja.

Notícias ultra fofas e rápidas de 2014

Sara Carbonero e Iker Casillas já têm nos braços o seu bebé, nascido hoje: Martín!

Quaresma volta ao grande Porto, como já se sabia... com o número 7!

Brindes amáveis.

Sabemos que ainda não somos verdadeiramente boas pessoas quando...

... na sequência da notícia das vítimas da bomba da II Guerra da Alemanha nos perpassa na cachola, sem querer, algo como: "dado o evento originário, antes ali que acoli...".

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Diálogo que urge desde dentro: íntegro e Integral

A grande conexão matricial e cada um de nós
 
Não há melhor forma de iniciar um ano, esse imemorial simbolismo da passagem, da renovação, das mil novas oportunidades e surpresas, do que citar aqui integralmente a profunda e belíssima mensagem que Paulo Borges deixou no seu Facebook. Paulo Borges é um sábio e um homem boníssimo, que quer tudo mesmo que o achem essas coisas. É um demandante, e eu soube isso logo quando foi meu Professor tinha eu vinte e um anos.
 
Como eu própria lhe deixei em comentário, o facto de aqui estar rodeada de Natureza, do puro campo, do rico mato, de tudo tão ao pé quanto estrelas e lagos de água das chuvas, fontes e incontáveis copas de árvores, faz-me ainda mais intensamente partilhar essa funda necessidade que aqui é expressa e que mais não é, porém, do que uma gritante naturalidade: o ser humano precisa disso como de água, de pão, de amor e de mar, de rir, de acordar. De despertar.
 
"Como diz Thomas Berry, “quebrámos a grande conversa” e assim “despedaçámos o universo”. Estamos apenas a falar connosco próprios, humanos, e cada vez mais virtual e menos profundamente. Na verdade, estamos sobretudo a tornar-nos cada vez mais autistas, fechados num monólogo ensurdecedor com os nossos pensamentos e preocupações. Essa é a raiz de muitos desastres.

Há que reatar a “grande conversa”. Em vez de vivermos isolados no nosso ruído mental e emocional, silenciar a mente para escutar e contemplar a portentosa e prodigiosa vida do universo da qual somos inseparáveis. Escutar e contemplar, seus arrogantes filhos mais recentes, as coisas primordiais, vastas e profundas. O uivo do vento, o cair da chuva, as estranhas formas das nuvens, o brilho dos astros, o rumor do oceano, o silêncio da terra, o crepitar do fogo, o ondulante murmúrio das florestas, o canto da matéria obscura, a luz, as sombras e as trevas do mundo.

Escutar e contemplar também os nossos companheiros na grande aventura cósmica, os animais. O ladrar do cão, o miar do gato, os gritos longínquos das gaivotas, o uivo dos lobos, o bramido dos elefantes, o silvo das serpentes, o zumbido das abelhas, o lento rastejar do caracol.

Contemplar e escutar na multidão de formas e movimentos do Grande Todo a revelação contínua de quem realmente somos, este ser ilimitado que as fronteiras da pele de um corpo humano não podem conter. Captar as mensagens que em linguagens e línguas múltiplas constantemente se nos dirigem, expressando ideias, sentimentos e sensações para as quais as pobres mentes e línguas humanas não têm conceitos nem palavras. Despertar. Deixar de ser surdos e cegos para a grande conversa e convívio cósmicos.

Escutar a voz da terra, das fontes, dos rios, das plantas, das pedras, do vento, dos planetas, das estrelas. A voz da formiga e da aranha, do cavalo e do javali, do tigre e da borboleta. E falar então, falar com tudo e com todos. Falar com os rios, as tartarugas e os peixes, os montes, as codornizes e os lagartos, os bosques, os pássaros e os esquilos, as montanhas, as águias e os falcões, as grutas, as salamandras e as lesmas, as florestas, a lua e as corujas, os mosquitos, os charcos e o sol. Falar com palavras e em silêncio, confidenciar-lhes a nossa intimidade e sermos fiéis confidentes da sua. Escutar e dialogar no coro das vozes do mundo, aprendendo tudo o que se não ensina nas escolas do verbo íntimo que por todas perpassa, sentindo inseparáveis de nós as presenças e vidas invisíveis e sagradas que em todas se manifestam.

Abrir e alargar a consciência da sociedade dos humanos à imensa comunidade e comunhão cósmicas. Os cegos, surdos e mudos que só ouvem e falam à escala humana, os débeis de espírito que só lêem e compreendem livros e coisas escritas e se encerram nas artes, ciências e letras, os estreitos de coração que só trocam afectos com o animal humano, os falhos de comunicação que a limitam à tecnologia e aos media, poderão chamar-te louco e rir-se de ti, mas esse é o ridículo preço a pagar por te curares da loucura que eles têm por normalidade e entrares na Grande Empatia, na Grande Conversa e na Grande Lucidez."

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Feliz primeiro dia do Ano!

 
O melhor que brote
(Foto de Zim)
 
Leitores sagazes, atentos e sensíveis ao devir dos tempos: olhai lá para fora, e vede que estamos já noutro ciclo: tudo é civilidade, amor, respeito, ética, criatividade ao melhor nível e felicidade, e a saúde abunda para todos.
 
Era bom, não era?
 
"Pelo sonho é que vamos", nas palavras de Sebastião da Gama. 
 
"Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos."
(Sebastião da Gama)
 
 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A celebração laboriosa da renovação

Falésias do Sul. Appledore - Childe Hassam (1913)
 
Havendo o frio, que este cante melodicamente, mas de forma decidida e cortante, como fogo desde o fôlego do frio, para aclamar a frescura. Vigore o vento, que o mesmo dançarino desassombrado tudo desarrume e desassombre, ponha fora do lugar para que se restabeleça por maiores sentidos a harmonia precisa. Sendo chuva, que lave o ar, as palavras e memórias, os planos para que possam ser não exatamente os mesmos, mas os melhores e mais altos ao serviço da nossa necessidade e da nossa inestimável demanda. Fluidifiquemo-nos, edificados e sãos. Sabemos que o nosso mérito é mui discutível; mas ainda assim. Que a água apare as bordas do mundo e a gentilíssima compleição da rosa e nos dê caminhos aprazíveis e nutridos de vivificante seiva. Do escuro provenha um outro escuro, um mais denso mais pontilhado negrume em que por vezes estrelas estrelejem, luas luzam, mas sobretudo que um iniciático porvir desabroche desse maturar enriquecido da ausência de distração. Quando luz, que se espraie, esplendorosa, e nos alague num maravilhoso contorno de cores justas, de não distorção, mas de apelo ao paraíso cultivado do possível. E que do sol mais frutado do tempo brote a imarcescível diafaneidade do bom, do bem, e que se prolongue, e que nos tanja, e que tanto nos soletre e nos dance num soneto bem-aventurado, a brindar com cálices cheios da melhor espuma de esperança, que aguardara em envelhecidos barris franceses de 1832, diretamente para o presente e para banhar o futuro que germinará do novo, no maior derrame de labor fermentado pela melhor vontade.
 
Todas as coisas boas para todos, em 2014 e sempre.
 
Feliz Ano Novo!

Ingredientes únicos, pessoais e intransmissíveis

Mirem a barrinha lateral e o seu novo poema.

Lembram-se do PAF? - Súmula balançada de 2013

Próxima paragem?
 
Pois isto nada como dar umas miradelas aos posts que se foram escrevendo ao longo do ano para aclimatar o balanço do cujo.
 
Em geral, gostei mais de 2013 do que de 2012. Mas do acrónimo plenipotenciário PAF (Poupança, Ação e Fruição), que preconizara para o ano agora findo, apenas se salvou a Ação e parcialmente, porquanto no terreno exclusivo do labor, e a Fruição: muita música ao vivo com o advento magnífico no Ano do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil, através dos inesquecíveis espetáculos cheios de cor, luz e som do Espaço Brasil. Saudades já! A confirmação do interesse pelo jazz, ai que bole, e deixa bolar. Muita deambulação europeia, alguns rostos novos de cidades nunca vistas, muitas exposições de pintura apaixonantes, muito boa escultura. O regresso à leitura, com excelentes exemplares, com revisitações e descobertas absolutas. Eia, eia, eia. O regresso langoroso, dado, extático, ao mar! A fruição campestre no Verão e no Inverno. Ter explorado Paris com os meus Pais.
 
Quanto à Poupança, nicles: nem de euros, nem de desgaste. Apenas em certos detalhes muito específicos. Os males do mundo, a falta de cortesia, de ordem, de respeito e de civismo continuam a pôr-me adoudada, e isso não pode replicar-se no vindouro conjuntinho de dias, não pode. Não é o "junta-te a eles", mas o "defende-te do que te aleija a ti". Inventei agora, parece-me que bem. Deceções pesadas, pois que também vieram no cardápio. Sentimentos de esquecimento e de injustiça, de desmotivação irracional. Mas também surpresas delicadas, boas pessoas que se encontram, a iniciação à meditação, a genuína procura de algum adestramento, ainda que com tantos auto-escolhos. O auto é o problema. Posso dizê-lo, porque sequer jamais tentei tirar a carta de condução!
 
Todavia alguma coisa importante começou, uma pequena seletividade, uma pitada de recomeço e de redirecionamento. Proto-ação? Proto-ação comilão? Assim o espero, assim o espero.
 
Ano de muita intensidade em vários momentos, e de demasiada lassitude em aspetos particulares que precisariam de sol, de sal, do A do PAF!
 
Eh bien, nada a fazer (agora), o ano findou. Que o que de bom trouxe se expanda, e que o mau regrida, até se extinguir.
 
Que, de essencial, as grandes felicidades se mantenham.
 
Byezinho 2013, o ano em que tomei banho no mar Báltico... com friozote! ;)