sábado, 17 de maio de 2014

Bikanal

 



Escolhas tamborínicas

Não se tratou de uma bacanal, mas de uma verdadeira bikanal. Onde?, perguntam os mus mimosos e afogueados leitores. No El Corte Inglês, onde hoje me deu para ir depois de muuuuuitos anos. Passei por lá umas ótimas horas, e gostei de ver que, entre coisas caras de dar dó, há muitas coisas a excelentes preços também, e foi isso que aproveitei.
 
Entre as aquisições, contam-se as de bikinis. Sim, a vossa Zim perdeu umas toneladas e já concebe bikinizar-se novamente. Não que antes não fosse o que usasse. Bom, mas isto tudo para vos alertar que o 7º piso do El está cheio de bikinis e fatos de banho de todos os tamanhos, feitios, cores, padrões e preços. E deliciosos! Por isso, e sem publicidade alguma que não gratuita, espicaço as queridas leitoras a voejar por lá.
 
Dois dos modelos que comprei, da giríssima coleção da Sfera, acima, para vossos venturosos olhos.

Quanto ao supermercado do El, pois bem, foi a primeira vez que visitei: deslumbre! Muita oferta biológica e muito razoável presença vegan. Brindinho.

domingo, 4 de maio de 2014

Amar Portugal

 

(Portugal - Foto de Zim)
 
 
Continuando no meu internamento campestre, com vários passeios deliciosos cada dia, ocorreu-me hoje o que, em boa verdade, me tem vindo sistematicamente ao pensamento nos últimos tempos: como não amar Portugal? (Ok, e a Espanha, a França, a Itália, o mundo, mas...) Numa curta estadia na Dinamarca, em conversa fortuita com uma simpática local e com direito a uma sessão fabulosa de jazz onde ela não ia há séculos, diz-me a senhora do seu país que não tinha a diversidade do nosso. Acreditei piamente, pois fiz uma viagem de comboio até Helsingor (famoso local shakesperiano), e a natureza pareceu-me bonita e monótona, na sua direiteza verde, na ausência de incidente orográfico, na discrição dos efeitos da paisagem.

O nosso pequeno País consegue concentrar em si um delicioso punhado de uma generosidade estética incrível. As maravilhas do Douro, as fragas e as serras, os rios e os regatinhos, as curvas e contracurvas transmontanas, a doçura montanhosa do centro, as nossas latadas, os nossos carvalhos, o nosso pinhal, as festas da aldeia, a poesia da lezíria, a imensidão alentejana, os mares sem fim e as fofas areias algarvias. As nossas aldeias de pedra, as nossas cidades de luz, as nossas quatro estações e a delícia do nosso sol e céu azul! Os nossos costumes brandos, às vezes de endoidecer qualquer um, mas muitas vezes gentis e solidários. O nosso património literário de infinita beleza e impressão, impressão queiroziana, camoniana, camiliana, pessoana, andradiana, o'neilina, breyneriana, carneiriana, jorgiana, saramaguiana, fonsequiana, rosiana, garrettiana, pascoaesiana, borgiana, rodriguesiana, migueisiana, tantas mais anas! Os semblantes inesquecíveis de Teixeira Lopes, para sempre esculpidos na sua saudade, o sol frutado nas telas de Silva Porto, a demanda de Amadeo Sousa Cardoso, a avalanches retas e errantes de Vieira da Silva, talentos musicais (muito menos do que gostaria, mas puríssimo luxo quantos existem maiores) como Madredeus, Teresa Salgueiro, Sérgio Godinho, Fausto, B Fachada, Rui Veloso, Abrunhosa, Sara Tavares, os filmes fábulas fabulosos de Manoel de Oliveira, as personagens de Leonor Silveira, de Maria de Medeiros, de Luís Miguel Sintra, de Eunice Munõz, os traços viventes de Siza, o desenho de Souto Moura, a imaginação instigante de Ana Salazar, o Cristiano Ronaldo, o Mourinho, o FC Porto, o fado (não muito fã, mas com estes pensamento hoje até me veio à mente "é uma casa portuguesa com certeza" ), o deslumbramento dos nossos vinhos, da nossa Sagres, da nossa comida e doçaria (versões vegan  é claro), a nossa Farinha 33, o nosso pão! Os nossos guinesses malucos, a nossa História rocambolesca, apaixonante, pioneira, referência, o encontro de culturas em que participámos. A nossa revolução com cravos, a nossa lógica felizmente republicana, a nossa língua! A língua mais bonita do mundo, aos meus ouvidos, às minhas retinas, às minhas sensações, ao céu da minha boca. A nossa aspereza meiga, o nosso pensamento-seiva, o nosso desenrascanço, diacho! O nosso Humberto Delgado, o nosso Aristides Sousa Mendes, as nossas pronúncias!
 
O nosso caminho, a nossa alienação entre o totó e o búdico, o nosso provincianismo por vezes torpe, por vezes terno, o nosso portal Sapo. A nossa proximidade de fechar o País num abraço, de Miranda do Douro a Sagres, de Vila Real de Santo António a Caminha! As nossas águas frescas, os nossos olhos castanhos, o nosso Interior, o nosso Litoral, a nossa Psique psicadélica, o nosso rir de nós próprios, as nossas ilhas oníricas floridas, verdes, douradas e lindas, a nossa paixão que, aqui e ali, pisca luminosa e fecunda, o nosso Império da saudade.
 
Antes dizia amar o Brasil. Continuo a amar, é o meu outro país, o país-casa, o país-palavra-língua-casa também. Mas aprendi e felizmente, a percorrê-lo, a desesperar-me, a desentendê-lo e a fruí-lo, a ser com ele no tempo, a ser com ele no espaço, a amar Portugal.
 
Como não?




sexta-feira, 2 de maio de 2014

Esmeros campestres

 




 
 
 
 
Fotos de Zim
 
 
No campo, onde me dedico a tentar esquecer que Lisboa, em particular, e o Planeta Terra, em geral, existem, emergem das sombras e das clareiras solares ânsias laboriosas que urge atender. Há que não empurrar a formiga com demasiada força, que observar a pegada do porco javali, que beber água diretamente do regato corrente deitada no chão, como o meu Pai me ensinou hoje (beijinhos querido, se estiver a ler). É necessário apalpar a rosa que, fechada e gorda, guarda seleta a pulsação gloriosa do seu porvir. Polpuda e linda, aquela rosa cujo olor o nariz investiga e a mente expande um pouco mais. É preciso, para alívio são da consciência, certificarmo-nos de que não há já, efetivamente, rastro de flor das acácias. Mas aplaude-se a giesta remanescente, que bebe o sol e no-lo devolve, amarela, com a sua dançante claridade e deliciosa alegria. Imperiosa é a deteção exata da melhor sombra para mastigar, mascar e snifar o bom do Ulisses - Joyce, seu grande malandro! Atentar nos sabores maravilhosos que a terra dá, na hora do piquenique. Descortinar a ribeira aos pés frescos dos salgueiros e ficar perplexo ante uma árvore que pinga água. Ensaiar meditações, mergulhar na vetustez amantíssima da solidão da natureza, saudar os raios de ouro do fim da tarde e nadar no céu estrelado, transbordante de noite e de imensidão.
 
It's a dirty job, but...

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O 24, o 24!

 
A propósito do meu post sobre o 25 de Abril, deixo-vos esta pérola, que tudo diz sobre o tema sem ser preciso mais nada:
  
Poema-mensagem de Rui Zink *
 
 
Celebremos 24, o dia em que estávamos mudos.
Bons tempos, não o sabíamos,
mas éramos felizes assim
não havia cá complicações
Emigrava-se, trabalhava-se,
era tão bonito assim.
Celebremos 24, o dia em que estávamos mudos
éramos felizes e não sabíamos
uns sacanas duns sortudos
não sabíamos o que queríamos...
estávamos melhor assim.
Celebremos 24, data maior e verdadeira
se a liberdade é uma canseira
e a democracia a parte gaga
já o silêncio vale ouro.
Voltássemos hoje a 24
e a dívida ficava paga.
estarmos sossegadinhos
era o nosso maior tesouro.
A guerra? Era lá longe
e eles gostavam de nós
Mandava em nós um monge
vivíamos orgulhosamente sós.
Celebremos 24, o dia em que estávamos mudos.
 
 
 
* Publicado no seu Facebook.
 Obrigada pela liberdade de o publicar aqui!

Outro 25 de Abril

Dez anos. Bandeiras nas janelas, um país em êxtase, mas isso teria sido depois. Primavera de túnica vermelha e fita, aquela aragem fria e a camisola. Onde estará a camisola, e o cheiro, qual será a memória do Tejo a respeito? Testemunha do silêncio e do verso. Uma Primavera sem estiar, bilhetes,  adeuses, offline.  O meu coração batucada, percussivo como nunca, acho, nunca. Chocolates, tarde, surpresas, mousse, história, CV na mesa, e a sucessão do abandono a perfilar-se na outra margem, numa Outra Margem que desconhecia. Dez anos, Abril, "ao luar e ao sonho" de Campos, Pessoa, ainda bem que existes e me nos compreendes. O tempo revolve-se, hirsuto como sobrancelhas, às vezes melífluo como licor.
 
Sim, Kant, liberdade para a Liberdade.  Que seja sempre essa a bandeira nas janelas e a flor nos corações em Abril. Qualquer Abril. De qualquer pessoa.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Viva o 25 de Abril - mas claro que sim!

Do tamanho de Abril
 
 
Especialmente quando chega esta altura, multiplicam-se por hábito as vozes "do contra": que o 25 de Abril não me deu nada, que a liberdade não me sustenta, que não há democracia, que antes é que era bom ou, então, que não era tão mau assim. Naturalmente, repetem-se os argumentos de que a difícil situação atual de Portugal e da Ecúmena se deve à mudança de regime, leia-se, de ditatorial para proto-democrático. (Claro que o 25 de Abril de 1974 foi uma alvorada, uma preparação, obviamente preciosa por esmagar a cabeça do monstruoso Estado Novo, velhíssimo, caduco, senil e criminoso.)
 
Só posso atribuir a este imenso desfilar de disparates duas desrazões injustificáveis: ou quem o diz padece da mais elementar ignorância histórica ou, por pretensão de alinhar com os "velhos e tradicionais tempos", e por vocação de alinhar com o status quo e com o "sim senhor", prefere identificar-se com o que o bom senso, obviamente (Humberto Delgado I love you), repudia.
 
Cabe-nos tentar a nossa parcela de luminárias e explicar que a culpa do abuso da liberdade não é haver liberdade, que a falta de elegância não deve à democracia os seus desvarios, que a pobreza não agradece a ditaduras obscurantistas, e que guerras idiotas não são o sustentáculo de um nacionalismo são, e muito menos de uma Nação. A forma de organizarmos e cultivarmos as nossas cabecinhas, a parvoíce social e a inépcia político-partidária, sim, são os fautores de tais descritos incómodos.
 
Kant dizia, com o seu brilho e acutilância únicos, que é necessária a "liberdade" para se aceder à "Liberdade". Deveras. Só com a oportunidade da expressão do livre pensamento, da livre defesa religiosa, política, social, sexual, estética, pode o homem cumprir a sua Humanidade. O sistema é nauseabundo e nefando? Claro. Seria melhor se ninguém pudesse levantar a cabeça, e usar a dita cuja? Seria melhor a vilania das prisões, torturas, mortes e exílios por se pensar ou agir diferentemente do que um grupo de gente quer? É isso mesmo, é a pacovice da União Nacional e da sua Cartilha anómala, que os exauridos de Abril consideram sofisticação?
 
Em mudança, e sobretudo em mudanças paradigmáticas, cometem-se erros também, e que não são desculpáveis. É isso que mancha a essência da mudança?
 
Note-se, eu não sou uma democrata natural, por assim dizer. Aqui, cito sempre os Delfins, e Churchill, está-se mesmo a ver. "Nunca gostei que a maioria organizasse o meu dia a dia", cantam os primeiros avisadamente, e todos os outros regimes são piores do que a Democracia - paráfrase minha para Winston.
 
Posto isto, viva o vermelho vivo dos cravos, vivam todas as mudanças que permitam minorar injustiças e promover o potencial do melhor que a humanidade pode mostrar!
 
Viva a Liberdade. Hoje, e sempre. Viva o Humanismo que nos falta compreender, amar e burilar, e que eu diria ser a canela para acrescentar aos cravos.  Gabriela. Mas a Liberdade não tem género.

domingo, 20 de abril de 2014

A Pipoca... e o Ermida Gerês Camping!





Ermida Gerês Camping... também me apetece voar para lá! 



Como sou esta blogger errática que os meus leitores, lá bem no fundo, tanto apreciam, não vos dei conta de um post maravilhoso da Pipoca Mais Doce na sua rubrica Negócio da China... mentira, é português.

A Pipoca foi fabulosa e este parque de campismo rural bem o merece, como já tenho vindo  dizer.

Este mês, o campeão do mundo Carlos Sá dará um brilho especial às imediações no Gerês Trail Adventure, a realizar este mês, e que passa no Ermida Gerês Camping!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O regresso... na TVI !

 
Queridos, desprovidos de mácula, sobejantes de glamour, diletíssimos leitores - eis-me aqui!
 
Tenho de dizer que, relativamente à minha amada Alegoria, me vou sentindo cada vez mais como aquela canção que os Kid Abelha tão bem interpretam: "(...) sou errada, sou errante, sempre na estrada, sempre distante...".  Acresce à ausência o facto do regresso (se compromissos, já sabem, gosto da nossa relação aberta e libérrima), vem com um pedaço de egocentrismo porquanto vos mostra, ao vivo  a cores, a minha participação no programa A Tarde é Sua, na TVI, usualmente apresentado por Fátima Lopes mas, nestes dias, por Iva Domingues. Hiperidrose (suor excessivo) era o tema, e lá fui contar a minha experiência como ex-hiperidrótica. O Doutor Jorge Cruz, que me operou há cerca de sete anos e meio, explicou muito bem as causas da hiperidrose, as implicações da doença e o procedimento cirúrgico. Grande mérito a escolha do tema, pois mesmo pelos vários contactos que recebi desde então fica bem claro que continua a haver muito a fazer pela divulgação desta doença que afeta cerca de 2% da população mundial, e mesmo entre os profissionais de saúde, com destaque para os médicos de clínica geral.
 
 
Espero que gostem e que, se dentre os meus leitores alguém tiver este problema, não hesite em dar os passos necessários para iniciar o processo de cura, ou seja:
 
- Escolha de um hospital no qual a cirurgia simpatectomia torácica videoassistida seja realizada, no setor cardiotorácico.
- Contatar o hospital, dizer a sua área de residência e perguntar se pode inscrever-se lá para a cirurgia, no caso de vir a decidir-se pela mesma. Perguntem também se ainda é necessária a carta do médico de família a pedir a consulta.
- Saber o nome do cirurgião.
- Pedir ao médico de família uma carta a solicitar consulta no hospital e com o médico acima referidos.
- Ir à consulta com o cirurgião, levar todas as questões escritas num papel, e certificarem-se de que ficam todas esclarecidas.
 
Não esquecer:
 
- Não seccionar o gânglio T2, a não ser em casos de hiperidrose craniofacial.
- Procurem cirurgiões com experiência e devidamente credenciados.
 
 
A solução existe!

domingo, 2 de março de 2014

And the Oscar goes to...

 
- Quero agradecer profundamente à Alegoria da Primaverve todo o apoio...
 
Saravá estimados leitores alegóricos!
 
Desculpas não bastam para a minha correspondência tão errática e intermitente, mas sei que estou sempre perdoada pelos vossos corações compassivos.
 
Na minha costumada aleatória perceção do que se passa no mundo, dei hoje conta de que se entregam as famosas estatuetas dos Oscars lá por Hollywood. Confesso que sempre desprezei o evento, votado que é a americanices cinematográficas e sendo eu essencialmente fã do robusto cinema europeu. Contudo, dou a mão à palmatória que este ano a coisa parece digna de nota, mesmo não tendo visto nenhum filme. Assisti há pouco a uma apresentação televisiva sumária, e já o tinha pensado quando um dos doutos comentadores verbaliza que é, com efeito, um ano forte. Avanço desde já com o principalíssimo motivo para o meu interesse nesta edição: o inigualável, genial, carismático, belo, único, etc. Leonardo DiCaprio, um dos meus atores preferidos, é candidato ao douradinho. Espero sinceramente que vença, é um eterno menino de ouro, e fez mesmo tudo bem. Muito fã. Cheers meu querido.
 
Nesta época sempre chatíssima de Carnaval, era bom que a Rússia levasse já um chega pra lá da comunidade internacional e que se desarredasse da Crimeia. Mas quem é que vai entrar em guerra com a Rússia? Espero que não esteja a preparar-se uma série de transmissões sangrentas sobre uma guerra em que a Ucrânia se veja encurralada e sozinha.
 
Tenho homologado.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Aquele abraço deliciado a Cronos

 
Oração ao Tempo - Caetano Veloso
 
 
Pois que não se pode dizer que os governos sejam completamente inúteis, não senhor. Escassas vezes, também lhes assiste uma outra ideia, para dizer o mínimo, luminosa.
 
Para 2014, lembraram-se (salve, salve), de abrir a possibilidade de trabalho a tempo parcial na Função Pública, onde labora esta fiel servidora (aqui sem ironia), com o corte salarial a corresponder "apenas" ao tempo não trabalhado e não a outros cortes advindos das loucuras da austeridade. Fiquei de orelha em pé, de olho em riste, de melguice em aprumo, e finalmente decidi-me: este ano, e com início a 1 de Fevereiro, mes chéris, não trabalho às segundas-feiras. Acho muito boa ideia, malgrado ter menos vil metal, trabalhar 4 dias e descansar 3. Não é de todo mau negócio. E como para o ano pode já não haver boas lembranças destas... aproveitemos mas é!
 
O tempo: o puro luxo.

Zim no metro

 
Olha a chinfrineira ilícita!
 
Meus diletos, não é à toa que os meus transportes preferidos são: pés, barco e avião. Não tenho culpa de não me adaptar a todo o espírito do transporte público (leia-se que o cheiro de carros em geral e em particular também me enjoa solenemente). Mesmo assim, verdade seja dita que o metro é, dentro da cidade, o meu transporte de eleição, sendo muito raro apanhar outro (que não a minha frota de táxis, como chamo - senhores taxistas de quem gosto e cujo contacto tenho e que me apanham onde e quando preciso).
 
Pois hoje vinha numa curta viagem de metro. O meu infortúnio começou logo quando me sentei. Um horrível cheiro a comida que me parecia vir de uma saca piolhosa de um homem que ia no banco da frente, com umas unhas, enfim, inenarráveis. Devia ser alguma doença, enfim. Aguentei uns segundos e optei por levantar-me e seguir estoicamente a pé até ao Rato. Estava muito bem em pé quando, a partir da estação das Picoas, o meu infortúnio aumenta. Lei de Murphy. Começo a ouvir uma música ALTÍSSIMA, e até procurei ver se o homem estranho se tinha decidido pelas tecnologias. Não, continuava a ler qualquer coisa. Tinha entrado uma adolescente anafada, que se sentara no banco da minha primeira tentativa, e eu estava cada vez mais enfastiada, diria já ressabiada com a música brega e nefanda e alta. Dirijo-me à moça muito polidamente.
 
- Esta música é sua?
- É.
- Pode baixar, por favor? Não estava a perceber de onde vinha.
 
Ela baixou, eu sorri-lhe e ela sorriu, menineira.
 
Pensei "que fofinha", porque deixei de ouvir qualquer ruído. Um segundo depois, uma musiqueta bera alta eleva-se da telefonezinha. Era a adolescente perseguidora, que exibia um ar entre o desafiador e o ligeiramente tímido perante o meu olhar sobre ela. Esperei, trocava olhares de "o mundo está perdido" com uma menina que seguia ao meu lado em pé, até que me virei de novo.
 
- Olhe tem de baixar.
 
- Eu já baixei. É a música.
 
- É um toque?
 
- Não. - Respondeu-me quase em dahhh. - Eu já baixei, é a música.
 
- Mas tem de baixar mais, está num transporte público, isso incomoda as pessoas. Ponha fones.
 
- Não tenho!
 
- Há uns tão giros... - aventei, maternal.
 
O estuporzinho fez um - Oh! - displicente, e lá seguiu com a musiqueta pelo metro fora, mesmo depois de sairmos.
 
Ao sairmos da carruagem, a moça que seguia em pé aproximou-se e disse-me, a sorrir:
 
- É a primeira vez que vejo alguém a pedir para baixar.
 
- Pois, e é a primeira vez que eu peço também... - acho eu.
 
- É a primeira vez que vejo alguém com a delicadeza de pedir para baixar - insistia a moça, graciosa e simpática.
 
- Como viu, não adiantou nada - sorri. - Adiantava se eu me chateasse, mas não estava para isso.
 
- E não valia a pena - disse a moça.- E se calhar até é melhor assim, porque com os fones destroem os ouvidos...
 
875b cn4mp5045linc5o,p5o n5m Que se lixem os ouvidos destes FDP desta escumalha nefanda e irrisória (pensei mais veloz que um avião a jato).
 
- Bom - argumentei suavemente - mais vale destruírem os ouvidos deles que os nossos...
 
Despedimo-nos com simpatia.
 
Algumas notas:
 
A apatia generalizada do pessoal que, pagando um bilhete, acha normal ser vilipendiado por estas criaturas. Tudo bem que a pessoa pode temer iniciar a coisa, mas se um camarada cidadão enceta o esquema, por que não apoiar? Todos contra a música alta, todos pelos fones, ora!
 
A miudinha, sem graça e púbere, ou acha aquilo tudo normal e à minha pessoa uma grande fastidiosa, ou adora aborrecer os demais seres humanos. Depois fiquei aborrecida: deveria ter-lhe gritado que parasse, puxado o travão de emergência, parado o metro, fazer um escândalo? Mas não me apetecia mesmo nadinha gastar mais energias, que andam tão derrotadas! Porém, não deixo de pensar que assim não foi formativo para a miúda, que continuará a atazanar as pessoas com o seu volume musical (de mau gosto).
 
E depois, a querideza da minha outra interlocutora, preocupada com os ouvidos dos meliantes do desassossego, e ao mesmo tempo a achar uma "delicadeza" a minha ação. Oh céus, mas não deveríamos todos indignar-nos e recusar as anormalidades que miúdos e graúdos nos imponham?
 
Como diria uma personagem de novela, creio que a Marieta Severo, sobre um rapaz que fazia de seu filho, também serei sempre uma "perplexa com a existência". Bufante, ressabiante, reclamante e, por vezes, "inacreditante".
 
Ainda bem que vou e venho a pé do labor todos os dias.
 
Vamos fazer um movimento contra música alta sem fones??

É que estes adolescentes não têm charme nenhum, nenhum, e nem desconfiam disso. Penalizante.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Obrigada diletos leitores de Zim!


- Grata leitores algodónicos!
 
Depois de muitos afazeres e preguiça e descanso, a Alegoria tem voltado a deixar cair, como pequena fonte que é, textinhos de forma mais sistemática. Com certeza que, por esse motivo, este mês notei uma afluência maior de leitores, aos quais quero agradecer muito a atenção e companhia. Não sei até quando a regularidade será mantida, já sabem que aqui a regra é não haver regra senão o bom gosto esfuziante alegórico.
 
Como presentes absolutamente impagáveis, aqui ficam umas fotos tiradas pela própria Diva, com os dedos mesmo da Diva.
 
Conseguem ver onde está o pompom do barrete?
 
Fiquem com o perfume daquela rosa tão rosa e tão fresca.

Em nome da leveza



Renoirs

O melhor da leveza nunca é desprovido de beleza. Rima e é verdade. E de um mar de coisas singulares que nos enriquecem pensamentos e sentimentos, enquanto nos revivescem emoções.  Este blog tem andado um pouco sério, o que na verdade se impõe dada a rusticidade permanentemente retrógrada dos tempos que vivemos, mas agora há que, como dizia o avô Maia n' Os Maias, abrir a janela e deixar o sol entrar! Que no entanto, com esta chuvada, esta humidade e este frio...
Mas deixemos as consequências da intempérie, que a intempérie seja consequente - mas sem malefício.
Amar pintura é ter o prazer de um deleite novo e repetido. Aquele que, espantado, inocentado e expectante também dá forma aos traços, intensidade às cores, nervura às texturas. A esse propósito, aqui ficam a brilhar três esplendorosos exemplares de um dos mais esplendorosos, enormes e leves pintores de todos os tempos - Pierre Auguste Renoir.
Brinde a esta fruição tão particular.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Uma carta diamantina de verdadeira

Alguém, em boa hora, decidiu enviar uma carta ao duxezinho da treta. Translúcido texto, tão cheio de sentido e de verdade! Está a ser divulgada no Facebook.
 

 "Ando aqui com esta merda entalada há já algum tempo. A ouvir as diferentes versões, a pensar nas dúvidas e a pôr-me no lugar das pessoas. Tento pôr-me no lugar dos pais dos teus ...colegas que morreram. Mas não quero. É um lugar que não quero nem imaginar. É um lugar que imagino ser escuro e vazio. Um vazio que nunca mais será preenchido. Nunca mais, Dux. Sabes o que é isso? Sabes o que é "nunca mais"?

https://www.youtube.com/watch?v=PHt31NNV0k0 (vídeo)

A história que te recusas a contar cheira cada vez mais a merda, Dux. Primeiro não falavas porque estavas traumatizado e em choque por perderes os teus colegas. Até acredito que estivesses. Agora parece que tens amnésia selectiva. É uma amnésia conveniente, Dux. Se calhar não sabias. Ou então andas a ver se isto passa. Mas isto não é uma simples dor de cabeça, Dux. Isto não vai lá com o tempo nem com uma aspirina. Já passou mais de 1 mês. Continuas calado. Mas os pais dos teus colegas têm todo o tempo do mundo para saber a verdade, Dux. E vão esperar e lutar e espremer e gritar até saberem. Porque tu não tens filhos, Dux. Não sabes do que um pai ou uma mãe é capaz de fazer por um filho. Até onde são capazes de ir. Até quando são capazes de esperar.

Vocês, Dux... Vocês e os vossos ridículos pactos de silêncio. Vocês e as vossas praxes da treta. Vocês e a mania que são uns mauzões. Que preparam as pessoas para a vida e para a realidade à base da humilhação, da violência e da tirania. Vou te ensinar uma coisa, Dux. Que se calhar já vai tarde. Mas o que prepara as pessoas para a vida é o amor, a fraternidade, a solidariedade e o civismo. O respeito. A dignidade humana e a auto-estima. Isso é que prepara as pessoas para a vida, Dux. Não é a destruí-las, Dux. É ao contrário. É a reforçá-las.

Transtorna-me saber que 6 colegas teus morreram, Dux. Também te deve transtornar a ti. Acredito. Mas devias ter pensado nisso antes. Tu que és o manda-chuva, e eles também, que possivelmente se deixaram ir na conversa. Tinham idade para saber mais. Meco à noite, no inverno, na maior ondulação dos últimos anos, com alerta vermelho para a costa portuguesa? Achavam mesmo que era sítio para se brincar às praxes, Dux? Ou para preparar as pessoas para a vida? Vocês são navy seals, Dux? Estavam a preparar-se para alguma missão na Síria? Enfim. Agora sê homenzinho, Dux. E fala. Vá. És tão dux para umas coisas e agora encolhes-te como um rato. Sabes o que significa dux, Dux? Significa líder em latim. Foste um líder, Dux, foste? Líderes não humilham colegas. Líderes não "empurram" colegas para a morte. Líderes lideram por exemplo. Dão o peito e a cara pelos colegas. Isso é um líder, Dux.

Não sei o que isto vai dar, Dux. Não sei até que ponto vai a tua responsabilidade nesta história toda. Mas a forma como a justiça actua neste país pequenino não faz vislumbrar grande justiça. És capaz de te safar de qualquer responsabilidade, qualquer que ela seja. Espero enganar-me. Vamos ver. O que eu sei é que os pais que perderam os filhos precisam de saber o que aconteceu. Precisam mesmo, Dux. É um direito que eles têm. É uma vontade que eles precisam. Negá-los disso, para mim já é um crime, Dux. Um crime contra a humanidade. Uma violação dos direitos humanos fundamentais. Só por isso Dux, já devias ser responsabilizado. É tortura, Dux. E a tortura é crime.

Sabes, quero me lembrar de ti para o resto da vida, Dux. Sabes porquê? Porque não quero que o meu filho cresça e se torne num dux. Quero que ele seja o oposto de ti. Quero que ele seja um líder e não um dux. Consegues pereceber o que digo, Dux? Quero que ele respeite todos e todas. Que ele lidere por exemplo. Que ele não humilhe ninguém. Que seja responsável. Que se chegue à frente sempre que tenha que assumir responsabilidades. Que seja corajoso e não um rato nem um cobardezinho. Que seja prudente e inteligente. E quero me lembrar também dos teus colegas que morreram. Porque não quero que o meu filho se deixe "mandar" e humilhar por duxezinhos como tu. Não quero que ele se acobarde nem se encolha perante nenhum duxezinho. Quero que ele saiba dizer "não" quando "não" é a resposta certa. Quando "não" pode salvar a sua dignidade, o seu orgulho ou até a sua vida. Quero que ele saiba dizer "basta" de cabeça erguida e peito cheio perante um duxezinho, um patrãozinho, um governozinho ou qualquer tirano mandão e inseguro que lhe apareça à frente. É isso que eu quero, Dux. Quem o vai preparar para a vida sou eu e a mãe dele, Dux. Não é nenhum dux nem nehuma comissão de praxes. Sabes porquê, Dux? Porque eu não quero um dia estar à espera de respostas de um cobarde com amnésia selectiva. Não quero nunca sentir o vazio dos pais dos teus colegas. Porque quero abraçar o meu filho todos os dias da minha vida até eu morrer, Dux. Percebeste? Até EU morrer. EU, Dux. Não ele."
 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Eu sei exatamente porque é que a tragédia do Meco aconteceu

 
 
 
Tenho uma amiga que continua intrigadíssima com o que se deu no Meco e que recolhe laboriosamente as diversas versões, aventa reconstituições, desafia a rapidez do surgimento de novas notícias a respeito. Por meu lado, estou tristemente satisfeita com a explicação para o que ocorreu. Claro que com uns bons borrachos na cara do rapazinho que agora tem amnésia seletiva (oh, pois sim!), ficaríamos a saber todos os detalhes. Mas seriam apenas isso - detalhes.
 
A tragédia do Meco aconteceu pelo mesmo motivo responsável, caros leitores, por tudo quanto aqui seguidamente vos narro. E por muito, muito mais.
 
A tragédia do Meco aconteceu pela mesma razão por que esta mesma madrugada fui violentamente acordada do sono dos justos, pelas três e tal da matina, com uma gritaria histérica na rua. Um grupo imbecil de jovens, daqueles grupinhos que saem geralmente aos fins-de-semana e que, no todo ou na parte, não sabem beber, estão a ver o filme, ladeava o bêbado do imbecil-mor que, em tronco nu e aos gritos, se debatia dentre eles. Não percebi o que se passava, se havia agressões ou não, mas destacava-se a voz histérica e descompensada de uma rapariga que berrava aos quatro ventos "Dá-me na tromba, estou a dizer-te para me dares uma (não sei quê) na tromba!" E mais gritos e choros. Síndica Zim, entre o indignado e o nervoso chama a polícia, que lá vem e tenta por ordem na coisa. Ainda tiveram de segui-los dentro do carro porque, mais à frente, os amigos não conseguiam controlar o rapaz de tronco nu apesar dos muitos esforços. Sob o olhar da polícia lá o conseguiram despachar para dentro do prédio que, espero que não para infortúnio futuro, fica sito na minha rua...
 
A tragédia do Meco aconteceu pela mesma razão por que hoje mesmo, da parte da tarde, me enfureci até à medula com uma barulheira de obras, totalmente ilícita, nas traseiras do meu prédio. Quantas vezes, remota e recentemente, ouvi este barulho de máquinas de obras ensurdecedoras e me disse: "este fim-de-semana não". E desistia, fechava a porta, esquecia-me do tremendo abuso sonoro. Isto sucedeu, camaradas, muitas vezes mesmo. Até que hoje me cansei, chego à janela e, malgrado não o dever, comecei a dar uma descasca aos culpados, que aquilo era um desrespeito, e que obras ao fim-de-semana são proibidas, e que se voltasse a acontecer chamava a polícia. Remédio santo. Mas, uns momentos depois, conto-vos outro idêntico motivo pelo qual a tragédia do Meco aconteceu: também das traseiras, mas de um r/c escondido da minha vista mas não, infelizmente, do meu martelo, da minha bigorna, de todo o meu delicado pavilhão auricular, começa uma literal martelada obtusa. Em conversa com vários dos meus vizinhos da frente, as pessoas têm-se queixado do que ali sofrem, com obras ao fim-de-semana, e por vezes até à noite, mas pelos vistos... não reclamam! Avisei também os facínoras barulhentos. Coincidência ou não, às marteladas sucedeu-se uma máquina verrinosa e totalmente arrombadora dos ouvidos. Com a ajuda do vizinho da frente saquei o número e o lado correto. Molestem a minha vida e eu molesto a vossa seus c...,,,,,. Lá veio a polícia, que esperei na rua, e muito solicitamente tomaram nota da reclamação. O barulho parou.
 
Mas a tragédia do Meco, perspicazes leitores, sucedeu também pela mesmíssima razão pela qual os jovenzinhos rascas, os jovenzinhos betinhosos e os jovenzinhos mais ou menos têm como assassino entretenimento corridas homicidas de carros, e agora até, segundo se diz, sovas de meia noite uns aos outros.
 
A tragédia do Meco ocorreu pelo mesmo motivo que superintende a outros comportamentos bárbaros ao volante, bêbados da vida, idiotas de serviço, monstros do milénio a ceifar vidas indiscriminadamente. E mais vidas, e mais vidas, e mais vidas, e mais sangue a alastrar no alcatrão.
 
A tragédia do Meco aconteceu por razão análoga às discussões assombrosas de certos lares resultante em violência doméstica mediante indignidades físicas e ou verbais.
 
A tragédia do Meco sucedeu pelo mesmo motivo pelo qual, esta mesma noite (acreditem ou não!!!) andava um homem na rua, totalmente zombie, aos ziguezagues e a dar pancadas nos caixotes do lixo, com raiva e sobra de energia que lhe faltava no cérebro.
 
A terrífica tragédia do Meco ocorreu pela mesma natureza de razão que me levou, noutro dia, a enviar um e-mail ao meu serviço inteiro, a dizer que esperava não ter de chamar outras instâncias para me queixar do cheiro e fumo de tabaco que pessoas que tinham idade para ter juízo estavam a insistir em fazer grassar pelo corredor, fumando na suas salas, o que é estritamente proibido. Isto depois de ter pedido, e depois de ordens nesse sentido!
 
A tragédia do Meco ocorre pela mesma razão por que as pessoas que não sabem levar e aceitar uma tampa com fair play se empenham em perseguir, arreliar e stressar os alvos do seu ressabiamento.
 
A tragédia do Meco teve lugar pelo mesmo motivo pelo qual as pessoas se recusam covardemente a testemunhar o que tem de ser testemunhado, a opinar quando a opinião faz a diferença, a recusar o que tem de ser recusado e a não tolerar o intolerável.
 
A tragédia do Meco aconteceu pela mesma razão por que há guerras, invasões e negócios escusos.
 
A tragédia do Meco aconteceu exatamente pelo mesmo motivo por que há estupros isolados ou coletivos, a crianças e a idosos, em Portugal, na Índia e na Indochina. E em todos os cantos deste merdoso mundo.
 
A tragédia do Meco horrorizou o País pela mesma razão pela qual os animais são maltratados, muitas vezes por "desporto".
 
A tragédia do Meco deu-se, meus caros, pelo mesmo motivo pelo qual todos os abusos acontecem, pelo qual toda e qualquer barbaridade é perpetrada: pelo desrespeito pela palavra, pelo conceito, pela palavra/necessidade/conceito/valor "Basta!" É por se desconsiderar que basta, que já chega, que é demais pá, que não pode continuar, que não pode repetir-se, que é irracional, que é lesivo, que é letal, que é desrespeitador, que é destrutivo, que é uma mácula sobre a preciosidade que é um ser, que é perigoso, que é uma indignidade, que é uma afronta, e que tudo isso é previsível, compreensível e evitável, é por isso que se sofre e que se morre. Espúria, estupidamente. É por isso que as pessoas se esfrangalham em nervos, que os bêbados demoram a tratar-se, a reassumir as suas vidas e a sua liberdade, que todos os drogados se adiam, que os deprimidos se vão afastando de si: por não observarem a força, a urgência, a terrível, majestosa importância e urgência do que BASTA!
 
BASTA.
 
BASTA.
 
BASTA.
 
Foi por isso.