sábado, 10 de janeiro de 2015

O que é preciso, leitor, é iniciar o ano com otimismo

Outro milho

Sento-me
Qual verdadeira ceifeira
Em cima de um penedo sobranceiro ao mundo
Sem tentações, nem tentador
Só eu, o penedo, a ceifa e o mundo
Mas o mundo
Não contém os ingredientes necessários e vitais
Sinto-me
Na derradeira
Lomba da estrada
Cadência da flauta
A primeira hora da antemanhã
Do antenada
A perfeita alvorada
Do preto
Eu sou
Como os sem porto
Sem mapa, sem rota, sem chegada
Muito branca, ou muito roxa e farta
Desta vilã cegada
Da fanfarronada estéril das minhas gulosas tripas
Ter tudo, não ter nada
É-me intocável
É-me de nácar,
É-me frio
Só sei
Que vou procrastinar a madrugada
Até alguma coisa raiar
Nas veias
Até alguma veia pulsar
Nas teias de aranha do cérebro dentro do crânio dentro do barrete dentro de casa dentro do bairro dentro da puta urbe dentro do planeta pulha dentro do ventre de alguma estrela a cair de velha que há de ser comida por Andrómeda
Porque estou selada
Fechada numa rua aberta sem árvores
Vou dar o porvir
Aos pombos

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz 2015!

Ágata

 
Formosos leitores, autênticas ágatas como a belíssima que tão bem ilustra este bilhetinho, já sei o que vão dizer. Que eu saio para comprar chocolates e não volto, que admito, sim, que a Alegoria é errática mas que se espera possa sê-lo um poucochito menos e depois pumba, um ano com menos de 50 posts, o mais despovoado deste blog intermitentis. (Oooops, lá tive de interromper pois recebi SMS com novidades das boas de uma querida amiga...ai, a vida múltipla, a vida surpreendente!)
 
 
Mas voltando ao tofu frio: não é bem como dizem, na verdade o meu coração está sempre convosco. A propósito, tenho de agradecer muito aos resilientes visitantes que continuam a frequentar esta saleta apesar da ausência prolongada da anfitriã: obrigada, muito!
 
 
Espero para o ano ter mais disposição para escrever (voltar a usar o portátil, que o tablet para escrever longamente não dá para mim), para ler, para fazer coisas de que gosto e para descobrir outras novas.
 
 
E por isso vim aqui hoje, desejar-vos um ano novo maravilhoso, embrulhadinho com grandes laçarotes cor de rosa, e que se mantenha no seu decurso o entusiasmo da sua chegada! Recebam-no como um delicioso bombom!
 
 
Muita saúde, paz, amor, e que dê para o gasto!
 
 
Abraços e beijinhos tamborínicos!
 
 
Deixo-vos com este belo poema da Sophia de Mello Breyner Andresen, que li ontem, e que tão bem se adequa a este momento de passagem, sobretudo simbólica:
 
Revolução
 
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
 
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
 
Como a voz do mar
Interior de um povo
 
Como página em branco
Onde o poema emerge
 
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
 
27 de Abril de 1974
 


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O mundo é assim tão pobre?

Muito comovente a história contada pelo outro laureado com o Nobel da Paz, Kailash Satyarthi, interpelado há uns 20 anos por um menino magricelas nos Himalaias: " O mundo é tão pobre que não me possa dar um brinquedo e um livro, em vez de uma arma ou ferramenta?"
 
Parte-nos em vários estilhaços.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Barro

Poeta-esplendor, Poeta-pássaro, Manoel de Barros
 
 
Terra, à terra voltamos.
 
Desde ontem, dia 13, o mundo ficou mais baço. Repararão num trinar mais modesto da passarada, um esmorecimento nas cervicais da flor, uma redobrada palidez das pétalas.
 
O mundo fica menos enigmático, mais nu e frio dentre toda esta chuva, num distar lacrimoso do Verão.
 
Voltei. Tornei para afiançar que os versos ainda por nascer já mirraram, que as
possibilidades escondidas desmaiaram um pouco mais pelo chão, um pouco mais não sendo.
 
Ao barro.
 
Desde ontem, há um embargamento alojado em alguma parte da minhas entranhas, talvez do âmago, dos ombros, pesados de não haver. Do pouco que li, que foi tanto. O suficiente, para saber que desde ontem as aranhas não brilham nem se aplicam da mesma forma, a letra não tem a mesma forma, os idiomas caminharam no sentido inverso ao coração, as metáforas desmantelaram-se em luto, cheias de sono, adormecidas numa praia com a lua apagada.

Morreu Manoel de Barros.


O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros

sábado, 20 de setembro de 2014

Parabéns e Abraçaço!

Caetano canta Parabéns no seu lindo Abraçaço



Pois algodónicos, ninguém o diz mas já lá vão 3 anos de Alegoria da Primaverve, nado a 20 de Setembro de 2011. Mesmo com intermitências, apesar das suas maluqueiras, das suas maleitas cerebrais, dos seus desconchavos, é sempre comovente a fina camada de sabedoria e extrema sensibilidade que perpassa nestas etéreas páginas homéricas.
 
É uma sensação um pouco estranha porque, se por um lado, o tempo voou e voa, parece que estou aqui convosco há muito mais tempo. Com os textos, com a Jangada Poética lateral, com todos os separadores de cima com tamborínicos rastros.
 
Nada melhor do que comemorar com o que é para mim o maior artista vivo - e bem vivo! - , Caetano Veloso. Intimamente, e nesta canção, agradeço a todos os magos que me inspiram e vão salvando: músicos, cantores, pintores, realizadores, criadores, talentosos fofoqueiros, amigos e, principalmente, aos meus fiéis e maravilhosos leitores. A si, leitor, a si, leitora, em qualquer canto do mundo onde esteja.
 
Estamos juntos.
 
Beijinhos e abraçaços, e grata milhões.
 
Parabéns Alegoria!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Eu no Ciência Hoje

Ao deixar a Gestão de Ciência e a Tecnologia (mas não a Gestão de Administração Pública, acalmem-se, estruturas da Nação!), deu-me para escrever este artigo simples mas creio que bastante significativo para o Ciência Hoje.
 
Psssssst, espie, leitor d'aquém e d'além mar! Estou à sua espera entrelinhas.

sábado, 13 de setembro de 2014

Um elixir feliz



Odette Toulemonde (Lições de Felicidade em português) - trailer


Odette Toulemonde encarna a alegria leve de um espírito simples e delicado, na sua vida organizada e fisicamente apertada, nos seus trabalhos regrados, na generosa atenção que vota aos outros e ao facto, por acaso não um pormenor, de estar viva. Odette sabe ser arrebatável, e continuo a achar que esse é o prumo seguro, o rumo desejado, a rota mágica da nossa sobrevivência maior, para lá da vida de todos os dias - a farinha, o açúcar e o sal da nossa demanda de felicidade.

Esta mulher, cujo sorriso nos inunda a existência, acaba por ter a oportunidade que sempre desejou: conhecer o seu escritor preferido, o que lhe tira os pés da terra, o que toma como seu pessoal salvador. Escritor de massas e boa pinta, não atravessa porém o melhor dos momentos, e é entre tensões, apreensões e simplicidades complexas que os seus caminhos se encontram face a face. De que valem os estereótipos na literatura e, mais ainda, na vida?

Um filme franco-belga delicioso e com um comovente perfume de surpresa, escrito e realizado por Eric-Emmanuel Schmitt, e interpretado por uma esplendorosa Catherine Frot, que bem prova não terem a beleza e a frescura qualquer data de validade credível. Credíveis são os olhos dela, credível é a imagética feliz desta história.

Não percam, há na FNAC baratinho. Deixo o trailer.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Como inundar uma cozinha


- Zzzocorroooo!!!...


De boas intenções está o inferninho apinhado e é bem certo, e eu que o digite, leitores empáticos, eu que o digite.

Houve obras no apartamento ao lado. (Em breve, também as haverá, essas harpias medonhas, no prédio inteiro, mas sobre isso quem sabe, com o tempo, outros posts se levantem.) Resumindo, achou-se por bem retirar as lindas plantas que tínhamos nas escadas, para não estragar o soalho novo que foi posto no dito cujo andar. Claro que ressabiei, sobretudo interiormente. Que se dane/wjrh394o/34 bc23 o i84cncgbc/dpçdldd/ jhfjerr do soalho! E a beleza luxuriante que todos os dias sorria esgaçadamente para mim ao subir as escadas, ao chegar a casa, ao felizmente meu querido último andar? Agora nada, é a lisura, o minimalismo no seu melhor, no seu maior, mas pelo menos o soalho fica intacto. Isto por causa da água das regas, etc.. Tudo bem. No fundo, o problema seria livrar-me de dois vasos enormes, um deles com uma planta enorme, alta, larga, folhuda, e o outro vaso (mas também enorme), com uma plantucha altinha mas para aí com uma folha e meia. Os dois pesadões. 

Importunar os senhores das obras, mediante um pagamento simbólico, para arrojarem com os vasos era uma hipótese, mas que não tive coragem de levar a cabo. Não me largava a ideia de que não tinha nada de aborrecer os trabalhadores de outrem com os meus dramas. Possuída, como habitualmente, por uma ideia palpitante, brilhante e fritante (e como a mesma me fritou!), resolvi-me a colocar as plantas na cozinha com a ajuda do tapete da entrada. Uma a uma, depositei-as no tapete, cujas pontas depois puxava, comigo obviamente de cócoras, até pertinho da janela da cozinha, para o soleil, para o solene bem-estar vegetal. Certo. Não fosse mal poder mexer-me entre as duas plantas, a despensa com o escadote encorpado preso na porta, as estantes dos sapatos e a máquina de lavar roupa. Tinha uma visita a fazer à minha querida amiga M. e à sua encantadora filha MM., minha sobrinha de coração. Atestada a exiguidade do espaço, resolvi dar um empurrãozinho à referida máquina de lavar. Ajoujando um pedaço o elemento, aumentava-se (ligeiramente) o espaço e senti-me um perfeita dona de casa e uma pessoa apta à imponderabilidade do aperto. Satisfeitíssima, pus roupa a lavar. Saio pela casa. Volto à cozinha...

Antes de entrar na cozinha, avistei, apavorada, uma maré de água a aproximar-se perigosamente do soalho do corredor. Entro na divisão: "água água água pra lavar a sede dessa multidão/ água água água pra lavar a alma e o coração", como canta a Daniela Mercury. Água! E mais água! Água a crescer, a avançar, a invadir. Precipito-me para a máquina, aborto-lhe a operação trituradora. Olho para trás do mostrengo, e percebi toda a origem do drama: ao empurrar a máquina, o tubo/borracha desprendeu-se da parede e, portanto, tudo o que entrava na máquina... saía para o chão, qual natural fontana das trevas! O horror, o exaspero. Tratei de ir buscar balde e esfregona, mas os meus tormentos mal tinham começado. A água acantonava-se, em resistência ibérica, atrás da máquina, e era impossível solucionar o caos se não fosse atacá-la na fonte. Claro que... empurrar é bem menos custoso que puxar, ora bien! Mas puxar, meus amigos, era o que me restava. Como puxar, porém, uma máquina maior do que nós, mais larga do que nós, mais possante do que nós? Ah, ah, mas não mais teimosa! Lá me agarrei aos ângulos da sinistra, eu própria angulosa, eu própria sinistrada, puxando como podia a máquina para a frente, ou simplesmente seria impossível retirar a água, que teimosamente refluía lá para trás. E era ancada para um lado, e mãozorras por outro, e suspiros e encontrões; dentre tais exercícios, o espaço entre a máquina e a parede proporcionou-me um campo de manobra impiedosamente mínimo, mas ainda assim um campo de manobra. Probleminha... acima da máquina temos uma estante em madeira, e acima desta um armário. Havia, portanto, que adestrar com fina sabedoria a capacidade do esgueiranço. Sento-me na capivara, voltada para a frente, agacho a cabeça e o torso o mais que posso, sucedendo-se um bolshoiniano rodopio de ambas as pernas em direção à parede. Rodo, portanto, sobre mim mesma, descabelada, exausta, cansada e atrasada, e esgueiro-me para o buraco, onde obviamente não conseguia permanecer de pé. Com a esfregona, balde, vassoura, faço o meu melhor. Quase urrei: parem as águas, ao invés de as separar. Com mosaica resiliência, e verificando que era debalde que o balde se esforçava só com a esfregona, voltei a pular para cima da máquina, desta feita virada para a parede, rodopio sobre mim mesma, reviro-me, bufo, esbravejo, bato com os braços, faço nódoas negras, e salto para o chão em busca de toalhas turcas. Muitas, várias. Espalho por todo o chão, levo um monte para a máquina. Volto a pular, a rodopiar, a acachapar, fico no buraco a mandar cabeçadas, a soltar imprecações e a atirar toalhas turcas para o chão, e a torcê-las. A torcê-las como ao pescoço da máquina, a pôr-lhes a alma para dentro do balde. Mas ah!... A água era tanta! Não chegavam as toalhas. Salta, rodopia, escorrega, chão, mais toalhas. Bingo, ideia-luz: fui buscar lençóis polares. Sim, lençóis polares! Bela absorção, tamanhaço convincente, avante camaradas, pula, bate com a cabeça, rodopia, etc.. Esgotada de água sobre água, rodeada de água por todos os lados, e depois dos turcos e dos polares, tiro as próprias calças de pijama que tinha vestidas e atiro-as também para o chão. Todo o tecido é pouco, e quem o não aproveita é louco. Bah, baf, sim! A repetição desta gestualidade frenética funcionou, e aos poucos, e com grande intensidade depositada na cena, venci as águas.

A conclusão do assunto passava por voltar a pôr a máquina lá para trás sem dar cabo do tubo outra vez. Estava descabelada, encharcada, exaurida, atrasada (mas já tinha remarcado), sem forças, ah... mas elas vieram. Agachei-me, e foi um dar graças aos glúteos gigantescos, e um agradecer mentalmente às pernas entroncadas e à fortaleza-delicada da coluna, e à resistência corporal que a minha vertente campestre me deve ter enxertado... Às calorias em reserva, à força bruta que sempre dá um arzinho da sua graça quando necessária. E foi rabada, ancada, pernada, tudo eu e toda mim para cima do instrumento... Mas com medida delicadeza, com ansiosa espera pelo seu exato mover, para que não se reproduzisse o drama, para que o tubo/borracha não alterasse o seu lugar na ordem do mundo. E dando graças pelas centenas de kms que mantinham a Mana afastada do cenário fairy tale... Foi duro, mas consegui.

Bafffffffffffffffffffffffffffffffffff.

Depois foi tirar água dos armários dos sapatos, repor cartões molhados no lugar, minimizar as provas do crime.

(A trasladação das plantas acabou por ser feita também por moi même, mas noutra ocasião (queriam o quê?!), e tratou-se de jungir o vaso ao meu corpo, e de descer os 3 andares como uma anormal, como se a planta me fosse um apêndice. E repetir com o segundo vaso. E oferecê-las à minha amiga e vizinha do rés-do-chão. E certamente tomar analgésicos depois.)

Ainda fui fazer a minha visita e outros afazeres externos. Mulher moderna, mulher moderna - que canseira, e que grotesca invenção!



domingo, 31 de agosto de 2014

Mirai a barrinha, escutai o silêncio..

... o perfurante silêncio de Hilda Hilst, felizmente publicado na excelente página Templo Cultural Delfos.
 
Atente, leitor, e releia.

Assim gira a bola azul

Foi esta a foto


A gente roda muito, pouco ou mais ou menos em passeio pelo mundo, intra ou extramuros, é mundo na mesma, mundo igualzinho, e bastou ver agora uma fotografia linda da página do FB Just Lovely, amantíssima da natureza e mui inspirado lugar online, para que o pensamento me voejasse.
 
Pensei nos veados, nos leões no Krueger Park, a esta hora a passear, ou a descansar, ou a evitar as ávidas lentas dos deslumbrados turistas como eu. Na Avenida Atlântica, o tráfego de sempre de beleza e gosto de estar à beira mar e à beira Rio. Em Veneza, uma foto deve estar a tirar-se timidamente, de costas para a lagoa de S. Giorgio, e fotos espalhafatosas flasharão em frente a S. Marco. No Gerês, caminhantes solitários e gregários suam, sob o mesmo sol, encadeados de fascinação e ar puro, no Porto a Ribeira estará colorida e cheia de cores, com sol e com alguém a fumar, alguém a beber água, alguém à espera do seu almoço, outro alguém a perscrutar um mapa a antecipar o que lhe reservará a tarde em descobertas e palmilhares. Em Serralves, alguém estará encantado com a exposição do Marwan, como eu estive, e noutras salas alguém rirá muito, como eu também, mesmo que para dentro por vergonha. Em Paris, o Sena brilhará, um pouco fatigado do bulício do Verão, mas sempre a dourar, a dourar. Numa rua de Jaipur, pessoas coçam-se no passeio inexistente e meninos lindos riem e correm.
 
Nem quero pensar nem evocar as infelicidades de tantos outros lados, contíguos ou muito distantes  dos citados. Como sobreviver sem egoísmo?
 
Assim vai a bola, apenas um berlinde em mãos misteriosas.

Zim, estou aqui!


- Zou eu!..
(Foto de Zim)

Pareceu-me ouvir uivos do alto de inacabáveis montanhas, penares de mil almas folhadas a arrastar-se dentre indecifráveis breus, nevoeiros adensando-se em augúrios temíveis, todo o Verão fora. E as vozes, e os uivos, e as brumas bramavam, gasosas, tenebrosas, saudosas:
 
- Zzzzzzzimmmmm!....
 
- Onde estás?.....
 
- Ao menos o corpo para velarmos em paz!.... Zimmmm!...
 
Calma, mundo, aquiete-se a vozearia e sane-se de imediato a lancinante chaga nos Vossos bondosos corações.
 
Voltei, ou melhor, estou aqui. Não sei por quanto tempo, nunca sei. Esta Alegoria  é uma alegoria, e o meu tempo e disposição não são de profissional. Antes, é puro amadorismo, puro diletantismo, total primavervismo a gasolina ecológica deste lugar. Mas ah, algodónicos e preciosos leitores, quando estou, estou por supuesto inteiriça, cada post me traz, cada ponto final me leva, mas tal qual a maré. Por falar nisso, já ouviram o Vista Pro Mar, do Silva? Sim? Sublime, não? Não? Não se façam isso, está disponível no Youtube mas o disco merece ser comprado, e sobretudo nós merecemos escutá-lo como se o bebêssemos.
 
Tantas coisas se passaram, decerto nenhuma mais importante que os banhos públicos (bahhhhh...tristeza quando a solidariedade tem de funcionar deste modo apalhaçado), o Mundial (por falar em tristeza), a Primavera que decorreu sorridente, quase todo o Verão... Novidades tamborínicas de que em breve darei conta geral, as férias, a minha primeira ida ao Ermida Gerês Camping, dois anos e doiddias depois de abrir... e voltei lá duas vezes desde Junho! E mais viagens pelo país, cujos retratinhos também deixarei por aqui, porque o solo nacional merece ser calcorreado. Reencontro da cidade amada, visita a novas cidades e lugares... muitos comboios, muitos passeios campestres, algumas excelentes leituras. Sim, mais houve depois do Ulisses! Sabores de bradar aos céus do palato, um espaço encantador de um casal ainda mais encantador, de que em breve falarei com detalhes de bem querer em forma de entrevista...  O meu próprio aniversário esse advento cósmico, cosmogónico e mundial, oh sim, trinta e oito séculos que voaram. E que mais?
 
Estimados leitores, é muito bom voltar a falar-vos, amo saber que estão desse lado a seguir as minhas maluqueiras e snobismos, e é com espantado prazer que verifico que, mesmo em meses em que nada escrevi, as visitas são muito interessantes! Obrigada Estados Unidos, o segundo país, a seguir ao nosso Portugal, que mais lê a Alegoria, obrigada Brasil, e a todos os outros amigos leitores. Estamos aqui. Inteiramente, e por agora. Assim é a vida, camaradas, assim é a vida: inteiramente, e por agora; brinde a que por muuuuuito tempo.
 
Brinde à eternidade!

Ah, que coincidência, vi agora no FB d' A Pipoca Mais Doce que hoje é o dia internacional do blog... eh bien, excelente para voltar, três meses depois!

sábado, 31 de maio de 2014

Na peugada da beleza



Zinzinhos felizes
(Fotos de Zim)
 
 
Beleza no conceito, beleza nos materiais, beleza na forma, beleza no pisar, beleza no design, beleza no estilo, beleza no serviço, beleza em toda a parte da NAE (No Animal Exploitation). 
 
Vegan e preocupada com a não exploração ilícita da mão de obra, esta empresa portuguesa, da qual sou fã confessa e que me continua a surpreender com os seus modelos e técnicas só adquire produtos em países em que, no que seja possível controlar, a referida exploração não se verifique. A ética  e a confiança, desde a conceção, passando pela produção e até ao consumo constituem as meninas dos olhos deste projeto encantadoramente belo e que gera beleza.
 
Acima, as minhas novas paixões, compradas há muito poucos dias! As botas para a caminhadas campestres, os sapatos... bem, para a própria da lua, de tão lindos. Cortiça I love you.
 
Relembro a entrevista que fiz à Paula Pérez, fundadora, há uns anos, para o Ciência Hoje.
 
Brinde à beleza que alegra a vida!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Silva, Vista Pro Mar - É favor parar tudo, preciso dizer o quanto amei

 
É Preciso Dizer foi a primeira do disco a apaixonar-me, com esta batida que cai como... cacau, festa, avião a jato, sei lá... 
 
 
Meus caros, há aqui "acontecência", e da melhor. Já tinha ouvido desatentamente uma música, e ouvi falar muito bem. Mas hoje, sabem, hoje, a doçura das coisas presentes e que, revelando-se, também nos reinauguram. Hoje fui à FNAC e atraída pelo destaque, pelo nome, pelo título, pela capa, quis ouvir um pouco. Trouxe-o, evidentemente, comigo.
 
Este novo disco do brasileiro Silva, Vista Pro Mar, foi lançado num ainda jovem 2014, com gravações em Vitória, no Brasil, e Lisboa, Portugal. Quem faz isto aos 25 anos já tem de ser um músico gigante. Nem sei por onde começar.
 
Vista Pro Mar é uma arquitetura sublime em cada faixa e no seu todo, uma prodigiosa engenharia sintetizadora da mais cativante e elegante eletrónica e do intemporal, perfeitamente tangidos pela voz tão bonita de Silva, ora distante ora bem perto do nosso ouvido. Tem a modernidade em flecha e um travo enxuto dos 80's, num torvelinho emocionante difícil de conter. Silva disse que queria um disco com "cara de praia". Sim, mas é muito mais do que esta aparentemente simples alusão poderia deixar supor. Este disco é um mar a invadir-nos os olhos e todos os sentidos, desde a frescura levíssima do Báltico não se apossara de mim uma tamanha sensação marítima de aventura e delícia. Vista Pro Mar inclui mergulhos no mar, léguas liquefeitas num prazer sofisticado, alegre, contente e extasiado, cheira a maresia, protetor solar, sabe à nossa comida preferida, queremos usá-lo como um vestido leve e ser astronautas em Terra. É uma vela a içar-se, um barco a partir e abraços carnais cheios de risos. É um azul que se dilui em exultação muscular, em elixir existencial, em turbina, em altifalante de criaturas feéricas e urbaníssimas, o sol a estalar, como pão quente, a apascentar a sua bênção nas paredes das casas. É eletricidade lunar. É uma manhã interminável, um dia com a justa isenção das horas. Justa como o exato virtuosismo de Silva. É a dança infrene da espuma das ondas e os gritos das gaivotas. É o corpo reunido ao sonho e elevado ao prazer num marulhar beatífico de extra ultra luxuosa e sugestiva impressão. É uma felicidade.
 
Proibido perder isto.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Obrigada leitores deste Mundo!

Apesar do caráter irrequieto e errático deste blog, tenho verificado um crescimento de alguns públicos, e fico muito contente quando vejo que Estados Unidos, Ucrânia, Rússia, Suécia, China, Holanda, entre outros, aumentam o seu número de leituras, ou as inauguram. Grata muito ao meu Brasil querido, e ao meu querido País, Portugal, que naturalmente lidera o ranking dos leitores.
 
Estamos juntos, obrigada!

Ulisses

 
 

Foto de Zim
 
 
Começo por admitir as minhas falhas quanto à literatura clássica: não li a Odisseia na qual Homero, ou outro(s) por ele, narra as aventuras de Ulisses.  Ilíada sim, foi escrupulosamente lida até ao seu término. A duras penas, mas nos meus 18 anos que sabia eu de leituras realmente difíceis.
 
Do que eu me recordo, tive três grandes intentonas literárias, no sentido de terem representado um esforço hercúleo (seguindo na matriz clássica) para prosseguir e concluir a sua leitura: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, Ontem não te vi em Babilónia, de António Lobo Antunes, e Ulisses, de James Joyce. Dos três,  a minha preferência vai integralmente para o primeiro, apesar da estrondosa dificuldade que  coloquialidade sertaneja da narração impõe - um peso pesado, mas uma maravilha. O livro que refiro de Lobo Antunes foi o único seu que li, a justaposição permanente de episódios, discursos, reminiscências, fizeram desta uma experiência de leitura interessante e intrincada, mas muito incompleta e baralhada. À última obra citada (com o peso de mil construções graníticas!) acabei-a ontem.
 
Comecei a ler Ulisses (que comprei por impulso ao ver a bonita edição da Relógio D' Água, lançada em Novembro último) nos últimos dias de 2014. Das poucas vezes que lhe peguei desde o início do ano dei-lhe uns bons avanços. Não interrompi com outra leitura: o sacrifício impôs-me uma fidelidade pragmática. Este foi, sem dúvida, o livro mais difícil de ler, para mim, até hoje. As razões são várias, e dada a natureza da sua escrita, aliás, das suas escritas, até a sua dimensão, umas potentes 730 páginas, dá uma ajuda para exaurir o leitor. Mil saravás ao tradutor, Jorge Vaz de Carvalho, porque deve ter sido absolutamente exasperante, talvez tanto quanto fascinante, traduzir o inglês, o inglês-onomatopeico, o inglês-doidivanas e o inglês inventado de Joyce. Joyce parece, com efeito, pretender enlouquecer-nos, levar-nos por um labirinto de horrores, de truques filológico, de detalhes sordidamente despropositados, deslocados, mas que de ínfimos e presentes findam por autenticar o mundo que descreve, ou melhor,  narração em que nos arrasta, de uma forma muito peculiar. Hoje percebo bem a importância do livro, a razão de ser uma referência, e para muitos o instaurador do romance moderno: não creio, de facto, que o arrojo, que as diabólicas tropelias de Joyce tenham lugar em muitas obras editadas. O fôlego, a perdição e a obstinação, quase irracional, da sua porfiada demanda de cenários. O autor demorou sete anos a finalizar Ulisses (1914-21) mas a história passa-se num único dia, em Dublin. Não há um grande enredo, como de resto costuma suceder nas minhas histórias preferidas. Há três personagens que se destacam, na proa Leopold Bloom, e contam-se encontros, conversas filosóficas, conversas ébrias, desconexas, mutações de seres que julgamos oníricas (mas, naquele contexto, naquele texto, ao sabor daquela pena doida, por que não reais??), uma jornada atribulada entre dois homens de diferentes gerações, as fugas de si de Bloom, talvez sobretudo para trás, os seus ideais e as suas peias, e a figura velada de Molly Bloom, apenas cruamente autorrevelada no final da história. Ao longo de diversos capítulos com estilos literários muito diferentes, está presente uma relação com a Irlanda, uma espécie de convocação da gesta antiga, esta, e uma certa vontade de emulação épica da Inglaterra. Uma obsessão de menção religiosa  malcriada de Joyce, provocadora, execrável também, na boca de alguns personagens (o que, entre outros detalhezinhos do livro, lhe valeram uma adicional Odisseia quando se tratou da sua publicação, com tribunais ao barulho, o costume), a loucura alienada, a sexualidade latente e, por vezes, fremente das figuras que desfilam ao som da dissonante sinfonia do autor. Uma pequena peripécia, cheia de enormes pequenas histórias. Dizem os críticos que  organização da obra pretender representar, no seu estilo, as diferentes fases da Odisseia. Disso, como vos disse, não posso falar. Mas posso dizer-vos que achei logo que a Beat Generation, da qual sou uma fã entusiasta, tiveram de ter tido uma inspiração Joyciana tempestuosa, e fiquei contente por ver que um dos críticos literários, quando do lançamento de Ulisses, afirmou que depois de Whitman não lera nada assim. Sabe-se da referência de Whitman nos beats...
 
Não foi, e duvido que alguma vez se torne um dos mus livros preferidos. Duvido, mesmo, que o queira reler. Talvez, daqui a vários anos,  como exercício literário-cerebral-ginasticante. Até porque o desentendo, mais do que entendo. Para mim a forma é essencial no romance, e na maior parte das vezes a forma de Ulisses desagrada-me. Há, no entanto, rasgões geniais, percebendo-se que o autor dominava com absoluta excelência a arte da escrita refinada, elevada, que sai numa correria poética desenfreada e que nos deixa, naqueles momentos, encantados. Mas não era essa a maneira que entendeu contar-nos toda esta história. Ulisses é um pugilato literário, uma luta estrénua para ser escrito e para ser lido, e se Bloom sua as estopinhas quem somos nós, leitores audazes, para não passar pelo mesmo?
 
Deixo alguns excertos abaixo. Aventurem-se, quando vos apetecer. Respirem fundo, e força.


"Rapazes, é agora. São 12 e 25 hora de Deus. Digam à vossa Mãe que vocês lá estarão. Despachem-se com o vosso pedido e jogareis o ás de trunfo. Alistai-vos aqui mesmo! Reservai bilhete para a eternidade, trajeto sem paragens. Só uma palavra mais. Sois deuses ou uma cambada de imbecis? Se o segundo advento chegar a Coney Island estamos preparados? Florry Cristo, Stephen Cristo, Zoe Cristo, Bloom Cr...isto, Kitty Cristo, Lynch Cristo, depende de vós sentir essa força cósmica. Estamos com miúfa do cosmos? Não. Fiquem do lado dos anjos. Sejam um prisma. Vocês têm aquela coisa dentro de vós, o eu superior. Podem ombrear com um Jesus, um Gautama, um Ingersoll. Vocês estão todos nesta vibração? Eu digo que estão. Uma vez que saquem isso, congregação, uma passeata até ao céu torna-se algo trivial. Entendeis-me? É um abrilhantador de vida, asseguro-vos. O que de mais excitante já existiu. É uma torta inteira com doce dentro. É simplesmente a linha de saída mais catita e animada. É imensa, supersumptuoso. Restaura. Vibra. Eu sei e sou uma espécie de vibrador."
 
 "Você morre pelo seu país, digamos. (...) Não que eu lhe deseje isso. Mas eu digo: o meu país que morra por mim. Até ao presente foi isso que ele fez. Eu não quero que ele morra. Que se dane a morte. longa vida à vida!"
 

" - Não podemos mudar o país. Vamos mudar de assunto."
 
 "Porque havia uma frustração recorrente de o deprimir mais?
Porque no ponto crítico decisivo da existência humana ele desejava corrigir muitas condições sociais, o produto da desigualdade e da avareza e da animosidade internacional."
 

" Que afinidades lhe pareciam existir entre a lua e a mulher?
A sua antiguidade em preceder e sobreviver a sucessivas gerações telúricas: a sua predominância noctuna: a sua dependência satelítica: o seu reflexo luminar: a sua constância durante todas as suas fases, erguendo-se e pondo-se às suas horas marcadas, crescendo e minguando: a invariabilidade forçada do seu aspecto: a sua resposta indeterminada à interrogação não afirmativa: a sua potência sobre águas efluentes e refluentes: o seu poder de enamorar, de mortificar, de conferir beleza, de enlouquecer, de incitar e auxiliar a delinquência: a tranquila inescrutabilidade do seu rosto: a terribilidade da sua isolada dominante implacável resplandecente propinquidade: os seus presságios de tempestade e de calmaria: o estímulo da sua luz., do seu movimento e da sua presença: a admonição das suas crateras, dos seus mares áridos, do seu silêncio: o seu esplendor, quando visível: a sua atracção, quando invisível."
 
"(...) oh e o mar o mar carmim por vezes como fogo e os esplêndidos poentes e as figueiras nos jardins de rosas e os jasmins e os gerânios e os cactos e Gibraltar quando eu era rapariga onde eu fui uma Flor da montanha (...) e depois eu pedi-lhe com os olhos para pedir de novo sim e depois ele pediu-me se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha (...)."