quinta-feira, 2 de abril de 2015

O Mestre

Manoel
 
Às vezes é verdade que a Alegoria vira um pouco a secção necrológica. Normalmente de seres que, pela obra, são meus amados.
 
Todos sabíamos que ouviríamos esta notícia mais cedo ou mais tarde, mas eu pensava sempre "mais tarde, muito mais, por favor." Assim com Niemeyer, e agora com Manoel de Oliveira, que morre aos 106 anos, no seu e meu amado Porto.
 
Não é verdade que se louvam apenas os que vão, não eu pelo menos. A minha relação com um dos maiores realizadores do mundo de sempre nasceu de forma tão espontânea que nunca poderá atribuir-se a modismo ou mania. Estava no cinema para ver outro filme, de que não me recordo, e anunciaram o trailer de O Convento. Fiquei fascinada. Uns dias depois vi o filme, ainda hoje o meu preferido dos que vi, faltam-me muitos felizmente, e Manoel de Oliveira passou a ser o realizador-escritor que eu amava, e que mal fazia um filme eu sabia que tinha de ir ver. A sensação era, e continua, a de distensão no divã, de intimidade com o momento e com a mundiviência manoelina. Mudou a minha perspetiva da filmagem, a minha forma de ver cinema e levou-me a amar uma arte que via com alguma desconfiança pela pouca satisfação que me trazia.
 
Claro que foram importantíssimos os atores de que se rodeou, a matriz de Agustina, mas ele dava o todo e o sopro de vida a tudo isso, a tudo aquilo que depois pairava na imaginação de quem teve a sorte de lhe prestar atenção.
 
Um filme por ano até ao fim, um portento. Porém, trata-se esse facto de um grande extra. Tivesse Manoel de Oliveira feito apenas um, ou dois, ou três filmes, e seria igualmente imarcescível.
 
E não só o País, mas todos os pluriversos devem estar de luto, agitem-se lágrimas de Saturno.
 
E eu amo-o.

sábado, 7 de março de 2015

Sim, sou chata

Quando estamos tristes, ou menos eufóricos, ou mais cansados, ou mais amargurados, ou menos resistentes à vida (por quê resistir-lhe, não deveria ser recebida como delícia?) ou, enfim, tudo isso, parece o sol uma estrela zombeteira, insolente e espaçosa. Invasiva da nossa treva quentinha, da nossa introspeção sorumbática, modelo nu trocista, a encandear-nos a neurose.
 
Nesses dias, prefiro um céu de cinza, em todo o esplendor do seu choro, chuva.
 
O céu azul apanha-nos com a sua crueldade fina, não deixa nada escondido.
 
Às vezes precisa-se de bruma. De escuro. De noite.
 
Assim se foge da luz.

domingo, 1 de março de 2015

Parabéns, cidade mais amada!


Samba do Avião, por Tom Jobim, O carioca, e a Banda Nova


Só liguei para dizer, Rio, que te amo.

Muito!

Faz hoje exatamente 450 anos que Estácio de Sá veio e se fundou a Maravilhosa. Só lá estive duas vezes, mas já a amava antes de pôr um pé.

Beijo o seu chão.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Alegoria da Grécia

Yanis Varoufakis e Alexis Tsipras, o duo dinâmico.
Foto da Reuters
 
 
Estimados, saravá!
 
Rápida, subreptícia, sibilina e murmurante, pssssssst !
 
Abram o olho. Os. Meus queridos, há que optar. A Alegoria da Primaverve está com a Grécia, com o povo grego, com o Yanis, com o Alexis, e com cada um que demonstrar esforços para honrar o primeiro compromisso de qualquer governo: servir honradamente o seu povo.
 
Por favor leiam e, se concordarem, assinem e partilhem esta petição online, que consiste numa carta aberta ao povo e ao governo gregos, por parte do povo português signatário. Será traduzida e entregue na Embaixada da Grécia em breve.
 
É que, camaradas, isto não é tudo a mesma coisa, não somos todas iguais. Eh bien.
 
Grata, beijos e abraços tamborínicos.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Versículos de um anjo insano


 
Nasci na antiga freguesia dos Mártires,

Antes de reordenarem Lisboa,

Viver é-me difícil

Como não seria, se abri a pestana

Em tal augúrio-freguesia?

Há poucas palavras no mundo

Poucas, contra um batalhão paradoxal de muitos dicionários, prontuários, gramáticas

Efetivamente, verifica-se um excesso de significados

De línguas, de sentidos

Para tão poucos vocábulos

Demasiados ouvidos, demasiados ouvires

Para estas palavras

Viver é-me difícil

Como não seria?

É-o em português, como seria em finlandês, mesmo em sânscrito

Mas em português é mais trágico

Naufragamos como ninguém

Deveríamos ser históricos pela grandeza do nosso naufrágio

Mais do que por comezinhas navegações à bolina ou ao desnorte

Adamastores somos nós

Viver é-me difícil

Que outro porto seria, com esta mesma bússola carregada de inércia e fado?

Há infinitos estertores de morte na boca dos vivos

Nas pregas de bocas idosas, nos dentes alvos jovens, nos músculos atletas, nos ziguezagues das conversas, nas montras, nos chapéus, nos volantes, nos pneus, na sombra lívida da lua até, por vezes

No guinchar dos bebés

Nos olhos tristes do cão, nas patas que malevolamente amarram aos pombos e que eu vejo, e isso viola o meu coração, sangra-me os dias, como é que engulo comida?

Muita construção civil, muito barulho, muitos gestos. Como aguentar a canseira dos olhos?

Depois há muitos canais de televisão, e isso torna a vida difícil a qualquer um, pois que as desgraças do mundo multiplicam-se em diferentes quadradinhos, que quintuplicam por sua vez as mil e seiscentas imagens sobre cada caso fatídico

Não há doze pessoas que morrem, há um milhão e vinte e quatro no mesmo episódio

Não são duas torres que rebentam, são seiscentas e quarenta e oito

Não são quatro bandidos, são um milhão, trezentos e noventa e cinco

É o cúmulo-limbo. Como não ser difícil viver?

São tão poucas frotas de navios

Para o tanto que precisaria de levar, para a abundância de atas dos concílios comigo, para as constituições pseudo liberais que redigi, inspirada nos trânsitos intestinais- oh, musa pia

A pia é uma musa e, leitor, não diga que não

Cada cagalhão, cada obra prima que sobe ao pensamento

Não diga que não

Há um estridor de folhas secas pelos passeios, por outro lado

E em ambos os lados da rua

Que me não deixa pensar

Viver é-me difícil

Às vezes ganho fungos nas unhas dos pés

Viver é-me difícil

Os cabelos branqueiam-me todos os dias

Viver é-me difícil

O Rio está muitas vezes muito longe da minha conta bancária

Viver é-me difícil

Odeio o sistema

Viver é-me difícil

O sistema odeia-me

Viver é-me difícil

A tiroide, a ânsia

Viver é-me difícil

A finitude dos dias que virão

Viver é-me difícil

A tua ausência

Viver é-me difícil

A minha ausência

Viver é-me difícil

O meu talento equívoco, intermitente, publicidade enganosa, díspar

Viver é-me difícil

A minha alegria entornada num chão de cinzas

Viver é-me difícil

Eu ser cinzas um dia

Viver é-me difícil

Eu ser

Viver é-me difícil

Eu

Viver é-me difícil

Não saber ser outra coisa

É-me difícil, ouviram?

Quero revoluções, quero faixas na rua,

Primaveras árduas

A gritar, a urrar

A matar por esta pequena e única

Única mesmo, de livro não sagrado

Única verdade

Que nem morrer me deixa

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Com o novo mês, uma coisa realmente boa

Algodónicos, nem sei que vos diga, provavelmente pensais, e com plausível tino, que este ano chegamos aos doze posts (um por mês, cof cof), mas se for para trazer coisas desta qualidade, que importa isso?
 
Foi hoje mesmo lançada uma página no Facebook sobre manifestações/ ações de rua em Lisboa, nestes últimos anos. Anos de espanto, de aperto, de medo, de solidariedades, de divas a marcharem com anarquistas (eu), de desfiles coloridos pelas ruas/rios/gaivotas de Lisboa, no rastro da Utopia, ou de mais qualificadas pistas utópicas. As palavras são armas, são descanso e ouro, voo, navegação, ansiedade, paz e transformação. Se as boas palavras não mudarem este espúrio mundo para melhor, morreremos, mudos, na praia porque, capazes de receber o sopro vivo do nosso sentimento, as palavras podem envolver como nata, encantar o planeta, acordar a Terra, salvíficas, escorrentes, imorredouras.
 
Como vívido registo, digno de uma perspetiva histórica, sobre o que diferentes homens e mulheres proclamaram, esperaram e sentiram nas ruas de Lisboa, em diversas frentes (independentemente da minha posição sobre as mesmas), e continuam a proclamar, esperar e sentir, tenho o prazer de divulgar a página, cujo título evoca a obra e a ideia de Zeca Afonso: Este rio, este rumo, esta gaivota .
 
Passem lá, e divulguem estas galerias de belíssimas fotografias e de vídeos emocionantes.
 
A inspiração também se colhe nestes momentos, nestes grandes e pequenos adventos.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O que é preciso, leitor, é iniciar o ano com otimismo

Outro milho

Sento-me
Qual verdadeira ceifeira
Em cima de um penedo sobranceiro ao mundo
Sem tentações, nem tentador
Só eu, o penedo, a ceifa e o mundo
Mas o mundo
Não contém os ingredientes necessários e vitais
Sinto-me
Na derradeira
Lomba da estrada
Cadência da flauta
A primeira hora da antemanhã
Do antenada
A perfeita alvorada
Do preto
Eu sou
Como os sem porto
Sem mapa, sem rota, sem chegada
Muito branca, ou muito roxa e farta
Desta vilã cegada
Da fanfarronada estéril das minhas gulosas tripas
Ter tudo, não ter nada
É-me intocável
É-me de nácar,
É-me frio
Só sei
Que vou procrastinar a madrugada
Até alguma coisa raiar
Nas veias
Até alguma veia pulsar
Nas teias de aranha do cérebro dentro do crânio dentro do barrete dentro de casa dentro do bairro dentro da puta urbe dentro do planeta pulha dentro do ventre de alguma estrela a cair de velha que há de ser comida por Andrómeda
Porque estou selada
Fechada numa rua aberta sem árvores
Vou dar o porvir
Aos pombos

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz 2015!

Ágata

 
Formosos leitores, autênticas ágatas como a belíssima que tão bem ilustra este bilhetinho, já sei o que vão dizer. Que eu saio para comprar chocolates e não volto, que admito, sim, que a Alegoria é errática mas que se espera possa sê-lo um poucochito menos e depois pumba, um ano com menos de 50 posts, o mais despovoado deste blog intermitentis. (Oooops, lá tive de interromper pois recebi SMS com novidades das boas de uma querida amiga...ai, a vida múltipla, a vida surpreendente!)
 
 
Mas voltando ao tofu frio: não é bem como dizem, na verdade o meu coração está sempre convosco. A propósito, tenho de agradecer muito aos resilientes visitantes que continuam a frequentar esta saleta apesar da ausência prolongada da anfitriã: obrigada, muito!
 
 
Espero para o ano ter mais disposição para escrever (voltar a usar o portátil, que o tablet para escrever longamente não dá para mim), para ler, para fazer coisas de que gosto e para descobrir outras novas.
 
 
E por isso vim aqui hoje, desejar-vos um ano novo maravilhoso, embrulhadinho com grandes laçarotes cor de rosa, e que se mantenha no seu decurso o entusiasmo da sua chegada! Recebam-no como um delicioso bombom!
 
 
Muita saúde, paz, amor, e que dê para o gasto!
 
 
Abraços e beijinhos tamborínicos!
 
 
Deixo-vos com este belo poema da Sophia de Mello Breyner Andresen, que li ontem, e que tão bem se adequa a este momento de passagem, sobretudo simbólica:
 
Revolução
 
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
 
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
 
Como a voz do mar
Interior de um povo
 
Como página em branco
Onde o poema emerge
 
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
 
27 de Abril de 1974
 


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O mundo é assim tão pobre?

Muito comovente a história contada pelo outro laureado com o Nobel da Paz, Kailash Satyarthi, interpelado há uns 20 anos por um menino magricelas nos Himalaias: " O mundo é tão pobre que não me possa dar um brinquedo e um livro, em vez de uma arma ou ferramenta?"
 
Parte-nos em vários estilhaços.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Barro

Poeta-esplendor, Poeta-pássaro, Manoel de Barros
 
 
Terra, à terra voltamos.
 
Desde ontem, dia 13, o mundo ficou mais baço. Repararão num trinar mais modesto da passarada, um esmorecimento nas cervicais da flor, uma redobrada palidez das pétalas.
 
O mundo fica menos enigmático, mais nu e frio dentre toda esta chuva, num distar lacrimoso do Verão.
 
Voltei. Tornei para afiançar que os versos ainda por nascer já mirraram, que as
possibilidades escondidas desmaiaram um pouco mais pelo chão, um pouco mais não sendo.
 
Ao barro.
 
Desde ontem, há um embargamento alojado em alguma parte da minhas entranhas, talvez do âmago, dos ombros, pesados de não haver. Do pouco que li, que foi tanto. O suficiente, para saber que desde ontem as aranhas não brilham nem se aplicam da mesma forma, a letra não tem a mesma forma, os idiomas caminharam no sentido inverso ao coração, as metáforas desmantelaram-se em luto, cheias de sono, adormecidas numa praia com a lua apagada.

Morreu Manoel de Barros.


O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros

sábado, 20 de setembro de 2014

Parabéns e Abraçaço!

Caetano canta Parabéns no seu lindo Abraçaço



Pois algodónicos, ninguém o diz mas já lá vão 3 anos de Alegoria da Primaverve, nado a 20 de Setembro de 2011. Mesmo com intermitências, apesar das suas maluqueiras, das suas maleitas cerebrais, dos seus desconchavos, é sempre comovente a fina camada de sabedoria e extrema sensibilidade que perpassa nestas etéreas páginas homéricas.
 
É uma sensação um pouco estranha porque, se por um lado, o tempo voou e voa, parece que estou aqui convosco há muito mais tempo. Com os textos, com a Jangada Poética lateral, com todos os separadores de cima com tamborínicos rastros.
 
Nada melhor do que comemorar com o que é para mim o maior artista vivo - e bem vivo! - , Caetano Veloso. Intimamente, e nesta canção, agradeço a todos os magos que me inspiram e vão salvando: músicos, cantores, pintores, realizadores, criadores, talentosos fofoqueiros, amigos e, principalmente, aos meus fiéis e maravilhosos leitores. A si, leitor, a si, leitora, em qualquer canto do mundo onde esteja.
 
Estamos juntos.
 
Beijinhos e abraçaços, e grata milhões.
 
Parabéns Alegoria!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Eu no Ciência Hoje

Ao deixar a Gestão de Ciência e a Tecnologia (mas não a Gestão de Administração Pública, acalmem-se, estruturas da Nação!), deu-me para escrever este artigo simples mas creio que bastante significativo para o Ciência Hoje.
 
Psssssst, espie, leitor d'aquém e d'além mar! Estou à sua espera entrelinhas.

sábado, 13 de setembro de 2014

Um elixir feliz



Odette Toulemonde (Lições de Felicidade em português) - trailer


Odette Toulemonde encarna a alegria leve de um espírito simples e delicado, na sua vida organizada e fisicamente apertada, nos seus trabalhos regrados, na generosa atenção que vota aos outros e ao facto, por acaso não um pormenor, de estar viva. Odette sabe ser arrebatável, e continuo a achar que esse é o prumo seguro, o rumo desejado, a rota mágica da nossa sobrevivência maior, para lá da vida de todos os dias - a farinha, o açúcar e o sal da nossa demanda de felicidade.

Esta mulher, cujo sorriso nos inunda a existência, acaba por ter a oportunidade que sempre desejou: conhecer o seu escritor preferido, o que lhe tira os pés da terra, o que toma como seu pessoal salvador. Escritor de massas e boa pinta, não atravessa porém o melhor dos momentos, e é entre tensões, apreensões e simplicidades complexas que os seus caminhos se encontram face a face. De que valem os estereótipos na literatura e, mais ainda, na vida?

Um filme franco-belga delicioso e com um comovente perfume de surpresa, escrito e realizado por Eric-Emmanuel Schmitt, e interpretado por uma esplendorosa Catherine Frot, que bem prova não terem a beleza e a frescura qualquer data de validade credível. Credíveis são os olhos dela, credível é a imagética feliz desta história.

Não percam, há na FNAC baratinho. Deixo o trailer.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Como inundar uma cozinha


- Zzzocorroooo!!!...


De boas intenções está o inferninho apinhado e é bem certo, e eu que o digite, leitores empáticos, eu que o digite.

Houve obras no apartamento ao lado. (Em breve, também as haverá, essas harpias medonhas, no prédio inteiro, mas sobre isso quem sabe, com o tempo, outros posts se levantem.) Resumindo, achou-se por bem retirar as lindas plantas que tínhamos nas escadas, para não estragar o soalho novo que foi posto no dito cujo andar. Claro que ressabiei, sobretudo interiormente. Que se dane/wjrh394o/34 bc23 o i84cncgbc/dpçdldd/ jhfjerr do soalho! E a beleza luxuriante que todos os dias sorria esgaçadamente para mim ao subir as escadas, ao chegar a casa, ao felizmente meu querido último andar? Agora nada, é a lisura, o minimalismo no seu melhor, no seu maior, mas pelo menos o soalho fica intacto. Isto por causa da água das regas, etc.. Tudo bem. No fundo, o problema seria livrar-me de dois vasos enormes, um deles com uma planta enorme, alta, larga, folhuda, e o outro vaso (mas também enorme), com uma plantucha altinha mas para aí com uma folha e meia. Os dois pesadões. 

Importunar os senhores das obras, mediante um pagamento simbólico, para arrojarem com os vasos era uma hipótese, mas que não tive coragem de levar a cabo. Não me largava a ideia de que não tinha nada de aborrecer os trabalhadores de outrem com os meus dramas. Possuída, como habitualmente, por uma ideia palpitante, brilhante e fritante (e como a mesma me fritou!), resolvi-me a colocar as plantas na cozinha com a ajuda do tapete da entrada. Uma a uma, depositei-as no tapete, cujas pontas depois puxava, comigo obviamente de cócoras, até pertinho da janela da cozinha, para o soleil, para o solene bem-estar vegetal. Certo. Não fosse mal poder mexer-me entre as duas plantas, a despensa com o escadote encorpado preso na porta, as estantes dos sapatos e a máquina de lavar roupa. Tinha uma visita a fazer à minha querida amiga M. e à sua encantadora filha MM., minha sobrinha de coração. Atestada a exiguidade do espaço, resolvi dar um empurrãozinho à referida máquina de lavar. Ajoujando um pedaço o elemento, aumentava-se (ligeiramente) o espaço e senti-me um perfeita dona de casa e uma pessoa apta à imponderabilidade do aperto. Satisfeitíssima, pus roupa a lavar. Saio pela casa. Volto à cozinha...

Antes de entrar na cozinha, avistei, apavorada, uma maré de água a aproximar-se perigosamente do soalho do corredor. Entro na divisão: "água água água pra lavar a sede dessa multidão/ água água água pra lavar a alma e o coração", como canta a Daniela Mercury. Água! E mais água! Água a crescer, a avançar, a invadir. Precipito-me para a máquina, aborto-lhe a operação trituradora. Olho para trás do mostrengo, e percebi toda a origem do drama: ao empurrar a máquina, o tubo/borracha desprendeu-se da parede e, portanto, tudo o que entrava na máquina... saía para o chão, qual natural fontana das trevas! O horror, o exaspero. Tratei de ir buscar balde e esfregona, mas os meus tormentos mal tinham começado. A água acantonava-se, em resistência ibérica, atrás da máquina, e era impossível solucionar o caos se não fosse atacá-la na fonte. Claro que... empurrar é bem menos custoso que puxar, ora bien! Mas puxar, meus amigos, era o que me restava. Como puxar, porém, uma máquina maior do que nós, mais larga do que nós, mais possante do que nós? Ah, ah, mas não mais teimosa! Lá me agarrei aos ângulos da sinistra, eu própria angulosa, eu própria sinistrada, puxando como podia a máquina para a frente, ou simplesmente seria impossível retirar a água, que teimosamente refluía lá para trás. E era ancada para um lado, e mãozorras por outro, e suspiros e encontrões; dentre tais exercícios, o espaço entre a máquina e a parede proporcionou-me um campo de manobra impiedosamente mínimo, mas ainda assim um campo de manobra. Probleminha... acima da máquina temos uma estante em madeira, e acima desta um armário. Havia, portanto, que adestrar com fina sabedoria a capacidade do esgueiranço. Sento-me na capivara, voltada para a frente, agacho a cabeça e o torso o mais que posso, sucedendo-se um bolshoiniano rodopio de ambas as pernas em direção à parede. Rodo, portanto, sobre mim mesma, descabelada, exausta, cansada e atrasada, e esgueiro-me para o buraco, onde obviamente não conseguia permanecer de pé. Com a esfregona, balde, vassoura, faço o meu melhor. Quase urrei: parem as águas, ao invés de as separar. Com mosaica resiliência, e verificando que era debalde que o balde se esforçava só com a esfregona, voltei a pular para cima da máquina, desta feita virada para a parede, rodopio sobre mim mesma, reviro-me, bufo, esbravejo, bato com os braços, faço nódoas negras, e salto para o chão em busca de toalhas turcas. Muitas, várias. Espalho por todo o chão, levo um monte para a máquina. Volto a pular, a rodopiar, a acachapar, fico no buraco a mandar cabeçadas, a soltar imprecações e a atirar toalhas turcas para o chão, e a torcê-las. A torcê-las como ao pescoço da máquina, a pôr-lhes a alma para dentro do balde. Mas ah!... A água era tanta! Não chegavam as toalhas. Salta, rodopia, escorrega, chão, mais toalhas. Bingo, ideia-luz: fui buscar lençóis polares. Sim, lençóis polares! Bela absorção, tamanhaço convincente, avante camaradas, pula, bate com a cabeça, rodopia, etc.. Esgotada de água sobre água, rodeada de água por todos os lados, e depois dos turcos e dos polares, tiro as próprias calças de pijama que tinha vestidas e atiro-as também para o chão. Todo o tecido é pouco, e quem o não aproveita é louco. Bah, baf, sim! A repetição desta gestualidade frenética funcionou, e aos poucos, e com grande intensidade depositada na cena, venci as águas.

A conclusão do assunto passava por voltar a pôr a máquina lá para trás sem dar cabo do tubo outra vez. Estava descabelada, encharcada, exaurida, atrasada (mas já tinha remarcado), sem forças, ah... mas elas vieram. Agachei-me, e foi um dar graças aos glúteos gigantescos, e um agradecer mentalmente às pernas entroncadas e à fortaleza-delicada da coluna, e à resistência corporal que a minha vertente campestre me deve ter enxertado... Às calorias em reserva, à força bruta que sempre dá um arzinho da sua graça quando necessária. E foi rabada, ancada, pernada, tudo eu e toda mim para cima do instrumento... Mas com medida delicadeza, com ansiosa espera pelo seu exato mover, para que não se reproduzisse o drama, para que o tubo/borracha não alterasse o seu lugar na ordem do mundo. E dando graças pelas centenas de kms que mantinham a Mana afastada do cenário fairy tale... Foi duro, mas consegui.

Bafffffffffffffffffffffffffffffffffff.

Depois foi tirar água dos armários dos sapatos, repor cartões molhados no lugar, minimizar as provas do crime.

(A trasladação das plantas acabou por ser feita também por moi même, mas noutra ocasião (queriam o quê?!), e tratou-se de jungir o vaso ao meu corpo, e de descer os 3 andares como uma anormal, como se a planta me fosse um apêndice. E repetir com o segundo vaso. E oferecê-las à minha amiga e vizinha do rés-do-chão. E certamente tomar analgésicos depois.)

Ainda fui fazer a minha visita e outros afazeres externos. Mulher moderna, mulher moderna - que canseira, e que grotesca invenção!



domingo, 31 de agosto de 2014