A propósito da morte de Zygmunt Bauman, segundo o que li sociólogo polaco crítico das opções desumanas dos nossos tempos, veio-me à ideia, e mais uma vez, o paradoxo do que temos sistematicamente de atravessar na quotidiana rotina da descivilização.
Pensadores que expõem, sem imerecidos dó e piedade, os cancros do sistema como a ganância, o desprezo dos frágeis, sejam frágeis pela sua idade, pela sua capacidade financeira, pela geografia de onde avistam e sentem o mundo, pessoas que esgrimem argumentos competentes e justos, são depois agraciados/elogiados/condecorados pelas peças integrantes do universo que desmascararam. Se gente tão "importante" lhes reconhece valor e razões, não deveria o mundo sofrer de influências menos vis e progredir na ética, na moral, na sofisticação sentimental? Só mais uma contradição...
O mundo ocidental verga-se e rasteja perante países corruptos (todos o são em diferentes escalas mas há-os MUITO, vergonhosamente Corruptos!) como China, Angola, Emirados e tantos outros, em que os direitos humanos mais básicos são esmagados e o ser livre, pensante, o ser que necessita de cuidados, dignidade, espaço, e sobretudo do que é seu por direito, é alarve e superiormente desprezado por quem deveria, em primeiro lugar, honrar e defender o seu povo. Defendemos os propalados valores ocidentais envergando camisolas feitas na China e no Bangladesh, com o suor de inocentes desprezados e sem horas para terminar a sua pobre e triste jorna, mas que dizer das mãos que tecem a Alta Costura? Já leram o Gomorra, do intrépido (e perseguido) Roberto Saviano? Ah pois, leiam e verão que até lojas na Avenida da Boavista são citadas. Meus caros, já dizia Cartola que o Mundo é um Moinho e que "vai reduzir as ilusões a pó". Como não, face a esta galeria infernal de interesses de terceira linha?
Trabalha-se uma vida, tenta-se caber, por vezes a que preço, nos cânones de uma sociedade que, se individualmente inquirida, não sabe de nada e tudo coloca em causa (o que pode ser deveras proveitoso), mas que na massa da esperta acefalia reinante se arroga de elevada jurisprudência e preceito. Os jovens, em massa, bestificados por comportamentos grupais alienados, individualmente monstros de fragilidade e, tantas vezes, agonia.
Tenta-se seguir uma linha reta na vida, quando a joia de uma qualquer deambulação que valha a pena são os caminhos, os desvios, as descobertas mais inesperadas.
Tudo isto para quê? Para continuar a calcar-se a verdade, para continuarmos amorfos em sonhos opiáceos que nos lentificam e cegam e enlouquecem, para engrossarmos as filas dos que procuram químicos para resistirem, para nos tentarmos desesperadamente esquecer que o que mais importa é a demanda da maravilha e nada, nada abaixo disso.
Nada, leitor, nada abaixo disso.
Ouviu?
Nada.


